Brasil: Os Índios do presente e a História

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Por Helena Lutéscia Luna Coelho para Combate Racismo Ambiental

São Miguel das Missões é uma cidadezinha do Rio Grande do Sul rodeada de campos de soja e milho. A fama da cidade vem das ruínas de São Miguel Arcanjo, uma missão jesuítica datada do século XVIII, declarada patrimônio da humanidade pela UNESCO, que atrai turistas e visitantes de todo o mundo.  Ali os jesuítas concentraram milhares de índios Guaranis, tangidos de suas aldeias pelo medo, promessas e falta de perspectivas diante da crueldade dos invasores portugueses e de seus descendentes. Os jesuítas lhes prometiam o céu e uma terra sem males, lhes impingiram outro modo de viver e se aproveitaram deles, mas também os protegeram enquanto puderam.

Expulsos os jesuítas pelos portugueses, os Guaranis, liderados por Sepé Tiaraju, se rebelaram contra os opressores, sendo massacrados barbaramente em vários anos de luta.   Os que restaram se dispersaram pelo sul do Brasil e muitos cruzaram a fronteira pros países vizinhos. A saga desse povo é contada em um comovente espetáculo oferecido aos turistas nas ruínas de São Miguel, em um cenário iluminado apenas com a luz das estrelas. Vozes gravadas e feixes de luz projetados nas ruínas recriam o drama e fazem a nossa emoção retroceder três séculos ao saber que estamos pisando o mesmo chão encharcado do sangue de tantos mártires.  

O que a maioria de nós não sabe é que a 30 quilômetros dali  uma aldeia Guarani sobrevive a duras penas, enquanto a glória dos seus antepassados movimenta o turismo local.  Os índios vivos são um incômodo, seu modo de vida é visto como indolente, a terra que ocupam é tida como desperdiçada, a venda de artesanato proibida em vários lugares, e muita gente ainda os chama de “bugres”. Imagino como seria se os ônibus cheios de escolares que visitam as ruínas os levassem também  à aldeia,  onde as crianças conversassem com as pessoas de lá e compartilhassem sua cultura. Certamente seria muito mais educativo se os próprios Guaranis contassem a história do seu povo e também se beneficiassem desse turismo, sem dúvida tão relevante.  Mas, isso parece não passar pela cabeça de ninguém, e mesmo os visitantes mais motivados desistem diante da esburacada estrada de terra que impede qualquer visitação.

A realidade dos Guaranis de São Miguel é semelhante à de outros grupos dessa etnia e também de outras, espalhados pelo Brasil afora. A FUNAI tem feito um trabalho excelente em defesa da demarcação dos territórios indígenas mas é preciso muito mais. Ao invés de permitir que se reduzam os poderes desse órgão, a sociedade brasileira deveria exigir que lhe fossem dadas condições de apoiar mais concretamente os povos indígenas com ações que os ajudem a viabilizar suas existências singulares como parte da nação brasileira. Colher os benefícios de sua própria história é um mínimo direito que não lhes pode ser usurpado.

Fortaleza, junho de 2013.

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