Livros didáticos passam a explorar mais a cultura negra

Pesquisa analisa aplicações da lei que traça as diretrizes e a obrigatoriedade do estudo da história afro-brasileira e indígena

Marília Gabriela e Jezulino Lúcio, Educação
Marília Gabriela e Jezulino Lúcio, Educação

Daniel Antunes – Do Hoje em Dia

CORONEL FABRICIANO – O tratamento dado aos negros nos livros didáticos de História, distribuídos pelo Governo do Estado nas escolas públicas mineiras, mudou. As imagens de escravos amarrados em troncos ou usados como moedas de troca estão cada vez mais distantes das salas de aula. Mas ainda há algumas publicações com desenhos e textos que subjugam os negros. É o que aponta o relatório preliminar de uma pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos da Cultura Africana e Afro-brasileira (Neab), do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (Unileste-MG), no Vale do Aço. As conclusões do estudo serão encaminhadas, no próximo ano, para avaliação do Ministério da Educação (MEC), por meio do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD).

A pesquisa “O negro e sua história nos livros didáticos” começou a ser feita pelo Neab em fevereiro deste ano. O objetivo é analisar, principalmente, as alterações no conteúdo dos livros de História adotados pelas escolas mineiras após a implantação da Lei nº 11.645, de março de 2008. A lei estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, incluindo no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade do estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena.

“O que se pode perceber, nesse primeiro momento, é uma mudança no conteúdo distribuído, com a valorização do negro, cuja cultura e relações familiares passaram a ser mais exploradas. A análise é desenvolvida tomando os discursos sobre o negro e sua história nos livros como um importante instrumento de difusão da memória sobre a escravidão”, diz a aluna do 4º período de História Marília Gabriela Souza, de 24 anos.

As análises levam em consideração as obras de História, aprovadas pelo PNLD, distribuídas a alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental de escolas estaduais de Coronel Fabriciano. “Esse plano tem como principal objetivo subsidiar o trabalho pedagógico dos professores por meio da distribuição de coleções aos alunos da educação básica. Após a avaliação das obras, o Ministério da Educação publica o Guia de Livros Didáticos, com resenhas das coleções consideradas aprovadas”, explica o mestre em História e coordenador do estudo, Jezulino Lúcio Mendes Braga.

A primeira fase da pesquisa, que deve ser concluída em janeiro, tenta identificar, nos livros didáticos, estereótipos da violência e da aceitação do sistema escravista de forma passiva pelo africano. O conteúdo extraído é comparado à tese, publicada em 2005, “Os discursos verbais e iconográficos sobre os negros em livros didáticos de História”, do professor João Bernardo da Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele analisou obras didáticas distribuídas nas escolas do Estado em 1986, 1997 e 2001, antes da Lei 11.645. “Pelo menos duas vezes por mês nos reunimos com o professor da UFMG para discutir o material extraído das coleções atuais e fazer análises”, destaca Marília Gabriela.

Além de ser enviado a avaliadores do PNLD, o relatório da primeira etapa da pesquisa será encaminhado, com sugestões, à Secretaria de Educação de Coronel Fabriciano. Ao mesmo tempo, terá início a segunda etapa do estudo, que vai avaliar como o novo conteúdo didático é explorado pelos professores nas salas de aula do município.

“Deve ser a etapa mais difícil do trabalho, porque sabemos que há uma carga ainda muito grande de preconceito nas salas, e que nem mesmo alguns profissionais da educação sabem lidar com o assunto”, diz o mestre Jezulino Lúcio.

http://www.hojeemdia.com.br/minas/livros-didaticos-passam-a-explorar-mais-a-cultura-negra-1.370328#.TseiQiSH7vM.gmail

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.