Desaprendendo na escola, por José Ribamar Bessa Freire

 

Foto: Valter Assunção
Foto: Valter Assunção

Taqui Pra Ti

Um professor Kaxinawá me contou da visita que a educadora Nietta Monte fez à sua aldeia, no Acre, há muitos anos, quando ela conversou durante horas com um velho sábio. Enquanto ouvia as narrativas tradicionais saborosas e cheias de vida que circulam em língua indígena, passou diante dela um jovem, caminhando em direção ao igarapé. Nietta, então, perguntou:

– Este menino aí conhece as histórias que o senhor me contou? Ele fala a língua Kaxinawá?

O velho respondeu:

– Não, minha filha! Coitadinho! Ele não sabe nada, é que ele foi para a escola, onde se desaprende tudo o que a gente sabe.

Acho que minha amiga Nietta escreveu essa história, com outras palavras e maior competência, em algum livro ou artigo, mas quem também me contou foi um aluno do Curso de Formação de Professores Indígenas, onde ministrei, em três ocasiões diferentes, módulos de História da Amazônia Indígena, convidado pela Comissão Pro-Indio do Acre (CPI/AC).

Para quem, como nós, trabalhamos com a escola e nela acreditamos, essa imagem é terrível: uma escola que des-ensina, um lugar aonde os alunos desaprendem língua, tradição, saberes. Se não tivesse frequentado a escola, o menino dominaria língua e conhecimentos que desaprendeu dentro da instituição. Em muitos casos – é preciso reconhecer – a escola fez com extraordinária eficiência aquilo que a senadora Kátia Abreu sonha: eliminar os índios do mapa do Brasil.

No Brasil durante cinco séculos, a relação dos índios com a escola foi sempre tensa e conflituosa. Embora seu alcance tenha sido bem restrito, essa escolapara índios, inaugurada com a catequese, atravessou o Império e a República. O estado neo-brasileiro herdou o modelo de escola que reprimia as línguas indígenas e excluía os conhecimentos tradicionais, as narrativas orais e os processos próprios de aprendizagem. Essa escola nunca contou com um único professor indígena.

Para os índios, a escola foi historicamente devoradora de identidades, apagadora de memórias, exterminadora de línguas.

Há alguns anos, pedi a meus alunos indígenas do Programa Kuaa Mbo’e de Formação de Professores Guarani da Região Sul que desenhassem a escola onde estudaram. Cada um dos 80 alunos fez o trabalho pedido. Um deles, Vanderson, revelou-se um grande artista do traço. Ele morava então na aldeia Pinhalzinho (PR), mas havia nascido na aldeia Laranjinha, onde ninguém mais falava guarani, porque a escola não-indígena já havia cumprido seu papel de des-ensinar.

O desenho que ele fez é uma obra prima. Trata-se de uma história em quadrinhos com muito movimento. Desenhou um grande prédio, com uma chaminé, que ocupou toda a folha de papel. Escreveu na fachada, com letras grandes: FÁBRICA DE FAZER BRANCOS. Do lado esquerdo, na parte inferior, frente à porta de entrada, uma fila de crianças indígenas com cocar e tanga. Um agenciador com um megafone grita: – Entrem, entrem, crianças!

No quadro seguinte, as crianças que ingressaram encontram um cesto onde está escrito: “Deixem aqui os vossos adornos”. As crianças se despem, então, do símbolo externo de suas identidades. Prosseguem seu caminho em direção a um chuveiro, onde tomam banho de água sanitária para embranquecer. De lá, saem para outro quadro, onde lhes aguarda um laboratório. Colocam na cabeça das crianças um capacete com fios para realizar uma lavagem cerebral.

Depois de mudados por dentro e por fora, as crianças passam por uma engrenagem sofisticada, com rodas dentadas, que parecem máquina de moer carne. Os coitadinhos são triturados, moídos, pulverizados e reformatados. Saem de lá para uma sala com guarda-roupa, onde vestem calça, camisa, sapato. No outro lado da página, no canto inferior, fica a porta de saída. O agenciador observa as crianças que saem e exclama com júbilo:

– Deu certo! Eles viraram brancos!

Foi contra essa  fábrica de fazer brancos que, em princípio, foram criadas as escolas bilingues interculturais garantidas pela Constituição Federal de 1988. Pela primeira vez na história do Brasil, o estado nacional, pressionado pelo movimento indígena e por seus aliados, manifestou vontade política de reconhecer e valorizar as línguas e culturas indígenas e de sepultar a velha escola para índios, criando um novo modelo de escola de índios, bilingue, intercultural, específica e diferenciada.

Nos últimos 25 anos se estruturou dentro do sistema nacional de educação, um sub-sistema de educação escolar indígena, do qual fazem parte, hoje, cerca de 2.700 escolas, com 11 mil professores (10 mil deles são índios) que dão aula para mais de 205.000 alunos no ensino fundamental e médio, segundo o Censo  Escolar de 2008 elaborado pelo INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Um pouco mais de 66% das escolas indígenas no Brasil são bilíngues e interculturais, seja lá o que isso signifique.

Qual o  bilinguismo e a interculturalidade praticado? Como é que os índios veem hoje essa nova escola e qual a imagem que ficou da velha escola que legalmente deixou de existir? Registrei ao longo dos anos, nos cursos de formação de professores bilingues que ministrei em 14 estados do Brasil, algumas histórias que revelam a imagem que tem os índios da escola.

Esse foi um dos temas do I Congresso Internacional América Latina e Interculturalidade organizado pela UNILA – Universidade Federal de Integração Latinoamericana nos dias 7, 8 e 9 de novembro, em Foz de Iguaçu, dentro do Parque Tecnológico de Itaipu. Envio este resumo da minha fala para os leitores do Diário do Amazonas.

Comments (2)

  1. Quando leio seus relatos, transformo em imagens e parece realmente algo apocaliptico. Algo parecido com o III Reich. Sofro por pensar que um dia isso acontecera conosco, ou ja esta acontecendo. Quando disserem que podemos mais comer farinha, que o jaraqui frito nao é fashion, e tirarem o tucuma dos nossos pratos. Ja nos sentimos selvagens por degustar quelonios, e nos encontramos as escondidas na casa de um cumplice para fazer tal banquete. E quando quiserem tirar o chiado do nosso sotaque? Que ser da sopa de piranha preta e do encarnado dos nossos batons? Sinto a pressão quando converso com alguém por minutos, seja pessoal e virtualmente e basta mostrar algum tipo de conhecimento erudito para tascarem a pergunta infame: mas voce não é Amazonense, de onde voce é? Respiro fundo, conto até zero e respondo: sou mais que isso, sou caboquinha mesmo.

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