Zara: denúncias de trabalho escravo não afetam vendas de Natal

Foto: Epitácio Pessoa / AE Denúncias de trabalho escravo em fornecedor não doeram no bolso da rede espanhola varejista de moda.
Foto: TV Bandeirantes/Reprodução Uma das linhas de produção dos fornecedores da Zara em São Paulo.

Para consumidores, todas as grandes marcas do varejo de moda têm os seus “chinesinhos”

Dubes Sônego, iG São Paulo

Há cerca de quatro meses, quando a Superintendência Regional do Trabalho de São Paulo descobriu que a Zara vendia roupas fabricadas no Brasil por imigrantes bolivianos, ninguém duvidava que a varejista teria um Natal pra lá de magro no país. O senso comum levava crer que os consumidores, indignados com o uso de mão de obra em situação análoga a escravidão, deixariam os vendedores da marca plantados nas lojas como manequins. Analistas de imagem se apressaram em fazer os prognósticos mais sombrios sobre o futuro da companhia no país.

Faltando poucas semanas para as festas de final de ano, porém, as previsões se mostram tão fantasiosas quanto a visita de Papai Noel. Na manhã da última sexta-feira, dia 1º, em meio aos corredores de vitrines decoradas com temas natalinos do luxuoso shopping Iguatemi, era comum encontrar consumidoras saracoteando com pares de sacolas da Zara, facilmente identificáveis pelo logo dourado sobre um fundo preto.

Dentro da loja, a impressão era confirmada em conversas informais com vendedoras da marca, no intervalo entre o atendimento de mamães e vovós em busca de camisas floridas de estilo havaiano e bermudões para surfistas mirins, um “must” das coleções na seção infantil masculina.

No Shopping Paulista, no início da avenida que lhe dá nome, uma delas, questionada se as denúncias chegaram a afetar as vendas, se surpreende: “aqui? Não”. O máximo que acontece, de vez em quando, diz outra atendente, no Iguatemi, é algum cliente incomodado com o atendimento ter um acesso de cidadania, subir o tom, e acusá-las de exploração de mão de obra escrava. “O mundo da moda é muito sujo. Mas a mídia também é muito sensacionalista”, opina.

A palavra de quem compra é outro indicativo de que as coisas para a Zara vão melhor do que se poderia supor. Para uma dezena de consumidoras abordadas pela reportagem do iG na saída das lojas, problemas com trabalho escravo são comuns no setor. Todos têm seus “chinesinhos”.

Amnésia

Mesmo as que dizem que ficaram decepcionadas e pararam de comprar, “em meio à correria do dia a dia” esqueceram a voltaram a frequentar as lojas da marca: “Depois da guerra do Afeganistão, e de ver um filme que mostrava como os frangos usados na fabricação dos hambúrgueres eram criados, também parei por um tempo de comer no McDonalds, em protesto. Mas outro dia me peguei comendo um”, disse uma delas, moradora do Rio de Janeiro, que fazia compras acompanhada pela mãe.

É um comportamento que contraria o que dizem muitos consultores de marca, para os quais os danos de denúncias do gênero podem ser irreparáveis. No entanto, há também no ramo quem não se surpreenda e diga que a companhia só corre o risco de se queimar caso deixe de oferecer o que promete aos consumidores em campanhas publicitárias.

“A proposta de marca da Zara é de vender moda a preços acessíveis. E isso ela faz”, diz José Roberto Martins, consultor da Global Brands. Seria diferente se a companhia “vendesse” responsabilidade social.

Para o consultor, a indiferença em relação ao trabalho escravo é também, em certa medida, resultado de uma enxurrada de denúncias que levam quem compra a crer que não existem opções. “É hipocrisia. Todas elas costuram no Bom Retiro. Mesmo marcas caras, como a Carina Duek”, diz uma das clientes da Zara, abordadas pela reportagem no Iguatemi.

De fato, em São Paulo, segundo informações do Ministério Público do Trabalho, 90% dos casos de trabalho escravo em áreas urbanas estão relacionadas à indústria têxtil. Os outros 10% estão na construção civil.

Desde a divulgação das denúncias em jornais, sites de notícias e TVs, classificadas por clientes e vendedoras da Zara de sensacionalistas, a Inditex, companhia espanhola dona da rede de lojas da marca, divulgou um plano de ação próprio que inclui investimentos em capacitação da mão de obra e auditorias em dezenas de fornecedores para evitar que o problema volte a acontecer. De qualquer forma, Martins acha difícil que a companhia se comprometa de forma mais incisiva com a causa.

A questão não é de caráter, mas estrutural. “Vai continuar a acontecer porque as empresas vão continuar a buscar fornecedores cada vez mais baratos. A própria Zara não quis assumir um compromisso com o Ministério Público do Trabalho (MPE) – na semana passada – porque sabe que precisa disso para sobreviver”, afirma o consultor.

Ajustes

O discurso da empresa é diferente. Em entrevista por e-mail, a Inditex diz que continua a discutir com o MPE sobre a adoção de um termo de ajuste de conduta, com o objetivo de chegar a um plano de ação que ajude a evitar que problemas do gênero se repitam no setor têxtil como um todo.

A companhia não divulga o volume de vendas no país, nem se foram afetadas ou não pelas denúncias. Mas confirma que o Brasil é um dos mercados nos quais pretende apostar mais fichas nos próximos anos. Hoje, tem 32 lojas Zara em 15 cidades brasileiras. Juntas, elas só vendem menos nas Américas que as redes de lojas da Inditex no México e nos EUA.

Pelo sim, pelo não, vale a pena evitar a pecha de escravagista.

http://economia.ig.com.br/zara-denuncias-de-trabalho-escravo-nao-afetam-vendas-de-natal/n1597399005950.html

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