Sassá Tupinambá: Carta aos Parentes

Parentes,

Acompanhei de perto, estive todos os dias junto com os parentes Kaiowa Guarani e o Tribunal Popular (organização que participo pelo Movimento Indígena Revolucionário, que vem crescendo em todo Brasil) e CIMI-SP. Fizemos várias articulações para garantir alimento e o ônibus de volta para Dourados, pois a FUNAI retirou o ônibus antes do término do julgamento, ou seja, mais uma vez foi provado a ineficiência, a incapacidade e a negligencia deste órgão para com os povos indígenas. Se não fossem as organizações que citei em nota, os parentes ficariam na rua durante 5 noites e passariam fome.

A grande São Paulo conta com uma população indígena de cerca de 70 mil pessoas, morando nos bairros periféricos e nas 4 aldeias, mas o número de indígenas da região que foram lá prestar solidariedade aos parentes foram muitíssimo baixo. Antônio Xucuru (familiar de Chicão Xucuru, assassinado em 1998) e eu estivemos durante todos os dias e passou algumas lideranças Pankararé e na quinta-feira um representante do Conselho Estadual dos Povos Indígenas de São Paulo – CEPISP, o parente Tupã Mirim (citei apenas os que vi, pode ser que [email protected] passaram por lá sem eu ter visto).

A presença de indígenas de São Paulo seria fundamental para as lideranças Kaiowa que estiveram aqui, ainda mais por 5 deles serem filhos do grande líder da nação Kaiowa Guarani, o Cacique Marco Verón. Prestar solidariedade é o mínimo que poderíamos fazer. Só a presença ali já dá força e conforta o sofrimento do povo na luta por justiça e reparação.

Este julgamento foi vitorioso sim, por tudo que já foi dito e o não dito; este julgamento foi também vitorioso pelo fato de termos conseguido manter durante 5 dias os parentes abrigados, alimentados (3 ou mais refeições diárias) e garantido a volta em segurança sem a mediação do Estado brasileiro, tudo isso articulado pelos movimentos sociais e entidades de classe. Essa é uma vitória imensurável e um grande avanço na luta dos povos indígenas.

Sentimos a falta de muitos parentes nesses cinco dias de julgamento. Não era pra levar comida, agasalho, dinheiro ou qualquer outra coisa material. Os Guarani Kaiowa precisavam era de demonstração de solidariedade, o que a presença dá conta inicialmente.

Esse não será o único julgamento. Esta luta não é só dos parentes Guarani Kaiowa, mas de cada povo que sofre a violência do Estado. Continuaremos com a articulação e estamos alertas.

No momento que Aymbere foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Zumbi foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Sepé Tiaraju foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Marcelino Tupinamba foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Marçal Guarani foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Antônio Conselheiro foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Emiliano Zapata foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Chicão Xucuru foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Galdino Pataxó foi assassinado, ali estava sendo todos nós! Quando Marco Verón foi assassinado, ali estava sendo todos nós!

Eles estão todos vivos em cada um de nós quando lutamos juntos!

Devemos ser cada um de nós o espelho de cada liderança; nos reconhecermos e nos indentificarmos naqueles e naquelas que lutam ao nosso lado. Eu sou Babau Tupinambá, eu sou Valdelice Tupinambá, eu sou Raoni Kayapó, eu sou Ladio Veron, eu sou Arão Guajajara, eu sou Urutao Guajajara, eu sou você, eu sou o manifestante ferido nos atos pela policia, eu sou o manifestante ferido por grupos nazifascistas, eu sou todos e todas que lutam!

Contra o capital e o agronegócio, temos a solidariedade entre os povos!

Viva a retomada Guarani Kaiowa!

Viva a retomada Tupinambá!

Liberdade [email protected] indígenas [email protected] já!

Sassa Tupinambá.

Enviado pelo autor para a lista superiorindigena.

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