Até prefeito tem fazenda na área dos xavantes

O prefeito de São Félix do Araguaia, Filemon Gomes Costa Limoeiro (PPS/MT), é dono de uma fazenda de 250 hectares, onde cria suas 400 cabeças de gado. Dublê de político e fazendeiro, Limoeiro garante que não se enquadra na categoria de invasor, já que, afirma ele, sua propriedade não está dentro da terra indígena Marãiwatsede, localizada entre os municípios de São Félix do Araguaia e Alto da Boa Vista, Norte do Mato Grosso. Mas seu nome consta da lista de 68 fazendas, que, segundo o Ministério da Justiça e a Fundação Nacional do Índio (Funai), estariam sim dentro da terra dos xavantes.

“Estamos brigando e acabamos de recorrer da decisão da Justiça Federal de Cuiabá, que considerou os índios os donos da terra” — critica Limoeiro, admitindo que não será fácil tirar os fazendeiros da área: “Porque todos nós vamos querer ser indenizados”. A reportagem é de Liana Melo e publicada pelo jornal O Globo, 14-11-2010.

Disputa territorial remonta à década de 60

Três laudos antropológicos e 12 anos depois de homologada, a terra indígena Marãiwatsede virou alvo de uma guerra de liminares. Recentemente, a Justiça Federal do Mato Grosso decidiu pela retirada da população não indígena da área. Só que a disputa em torno da região é bem mais antiga e remonta à década de 1960. Foi quando a população xavante que vivia na área foi retirada de seu território por aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). Os índios foram transferidos para o Sul do estado, onde estava a Missão Salesiana de São Marcos.

A remoção foi traumática. De uma população de 300 pessoas, 86 delas morreram, vítimas de sarampo. No lugar das aldeias dos xavantes instalou-se a fazenda Suiá-Missú, um megaprojeto agropecuário da família Ometto, que chegou a ser considerado o maior latifúndio do país. As terras acabaram vendidas para a estatal petrolífera italiana Agip, que, na época da Eco-92, prometeu devolver as terras para os índios. A promessa, no entanto, nunca saiu do papel. Em 1998, o então presidente Fernando Henrique Cardoso assinou a homologação da terra indígena Marãiwatsede.

‘Pilhagem dos recursos naturais’, diz bispo

O bispo de São Félix do Araguaia, dom Leonardo Ulrrich Steiner — substituto de dom Pedro Casaldágila, que transferiuse para a região nos anos 70 e é adepto da Teologia da Libertação — vem acompanhando a saga dos xavantes. Ele está convencido de que, parte do milagre agropecuário ocorrido no Mato Grosso se deu por “pilhagem dos recursos naturais e de comunidades tradicionais”:

— Como o desmatamento acaba afugentando os animais, os índios estão mudando seus hábitos alimentares. Temos acompanhado a situação e é impressionante como os índices de diabetes e hipertensão estão aumentando.

Hoje, a população de Marãiwatsede é de 900 pessoas, das quais 300 delas são crianças. O maior desejo dos xavantes é juntar os parentes, espalhados pelas 78 terras indígenas. Só que, para isso, é preciso que eles passem a ter direito a terra.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=38365

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