“Na contramão das ruas, negros vão ao Planalto elogiar Dilma”

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

AfroPress, com informações das Agências

Brasília – Destoando do sentimento de cobrança aos Governos das recentes manifestações de rua, a reunião do movimento negro com a Presidente Dilma Rousseff na tarde desta sexta-feira no Palácio do Planalto acabou com elogios “à sensibilidade da presidente” e cenas de bajulação explícitas.

“A impressão que ficou é que novamente houve muito confete. Trata-se de mais uma agenda partidária. O povo negro morrendo em uma guerra não declarada por ação dos Estados e omissão da União, parece não interessar aos pretinhos que foram lá. Assim como a titulação dos Territórios quilombolas e indígenas, não lhes interessa, menos ainda à Dilma e ao PT. Saímos como entramos, com alguns pretinhos achando uma maravilha a presidente tê-los recebido. Dilma continua distante e enrolando o povo e os negros. Tem gente que faz questão de ser enrolado”, afirmou Reginaldo Bispo, coordenador nacional de organização do Movimento Negro Unificado (MNU), após tomar conhecimento dos resultados do encontro.

No entendimento de Bispo, o encontro foi uma conversa do Governo com negros de partidos da sua base de apoio, em especial, representados pela Coordenação de Entidades Negras  (CONEN) e pela UNEGRO (União de Negros pela Igualdade), respectivamente do PT e do PC do B, em que não faltaram discursos genéricos e “cenas de bajulação e deslumbramento”. Líderanças mais críticas à gestão da ministra como Gilberto Leal, dirigente da CONEN da Bahia, teria tido a presença vetada no encontro.

Entre os 21 nomes convidados, apenas o Frei David Raimundo dos Santos, diretor executivo da Rede Educafro, e José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, são independentes em relação aos partidos de apoio ao Governo Federal.

Os demais – entre os quais Ivanir dos Santos, Marcos Rezende e Flávio Jorge, Kika de Bessen – tiveram o aval da ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros. O critério para a definição da maioria dos nomes foi pertencer ao Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), que é órgão de assessoria da ministra. Lideranças mais críticas à gestão de Bairros como Gilberto Leal, dirigente da CONEN da Bahia, teria tido a presença vetada no encontro.

Palavras

A própria ministra fez questão de dizer que um dos pontos mais importantes da reunião foi a reafirmação do compromisso do Governo federal com ações para combater a discriminação racial.  “A presidenta reafirmou que as ações afirmativas e, mais especificamente a das cotas, constituem um elemento central na luta pela promoção da igualdade no Brasil”, disse a ministra.

Na mesma linha, Valdeci Pedreira do Nascimento, do Instituto Odara da Mulher Negra, e Edson França, coordenador geral da UNEGRO, exaltaram a sensibilidade da Presidente para o Blog do Planalto. “O acolhimento da presidenta foi fundamental. Positivo o movimento sentar, chegar num mínimo de unidade no sentido de apresentar essas proposições, considerando inclusive a reforma política como uma das ações estruturantes e de mudanças relevantes que devem acontecer no nosso país, como também apresentar as avaliações positivas e apontar as negativas e garantir desdobramentos num conjunto de ações que para nós são prioritárias, e ouvir da presidente um compromisso dela em promover a igualdade no país, com todos os desafios que tem”, afirmou.

Também para França o encontro foi positivo. “Trabalhamos alguns eixos que consideramos importantes, tendo como ponto focal a reforma política”, disse.

De acordo com lideranças que acompanharam os preparativos da reunião, mesmo desgastada – inclusive entre os negros do PT, que a acusam de falta de diálogo e autoritarismo –  Bairros teria recorrido ao apoio da ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos e do próprio Gilberto Carvalho, ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência. Resultado: acabou por definir a pauta reduzida a questões genéricas, e retirar o protagonismo do movimento negro que pretendia caminhar com as próprias pernas e levar uma pauta própria. “Luiza Bairros é ministra do Governo. Não fala por nós, o movimento negro, que somos um movimento social. Somos parte da sociedade civil”, disse uma dessas lideranças.

Versão do Frei

Frei David disse a Afropress que travou um diálogo duro com a Presidente: ”A senhora até agora não regulamentou a Lei das cotas. A senhora está com medo de que?“ teria dito o frei, segundo o seu próprio relato. “Não estou com medo de nada. Sou radicalmente a favor das cotas”, teria respondido Dilma.

Sempre segundo Frei David, a presidente confessou que só foi saber da existência da questão racial no Brasil quando fez a pós-graduação. “Só fui saber que vocês [negros] existiam na pós-graduação. Passei o ensino fundamental e médio sem saber que vocês existiam. Fói só aí que descobrir vocês. Eu sou a favor da implementação dessa Lei”, afirmou em resposta a reivindicação de alguns líderes sobre a não implementação da Lei 10.639/2003.

Frei David disse que cobrou da presidente a adoção das cotas no serviço público no prazo de 30 dias. “O ministro do Planejamento está contra. Porque a senhora permite?  “Frei podem fazer quantos pareceres contrários quiserem. Sou a favor”, teria retrucado Dilma.

Além da presença da ministra da SEPPIR, a reunião teve a participação dos ministros Aloisio Mercadante, da Educação, e Gilberto Carvalho. O Frei disse que Mercadante elogiou a postura propositiva das lideranças presentes. “A minha impressão é que o Governo estava dormindo errando demais, apoiado por partidos sem seriedade, com partidos de aluguel. A voz do povo nas ruas fez o Governo acordar”, anima-se o frei.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Jase Jasson Frantz Konzen.

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