Das cinzas do Museu: uma pátria, muitas línguas, por José Ribamar Bessa Freire

“Este museu de tudo (…) / é mais do que um museu de tudo: / 
é um circo-feira,é um teatro / onde o tudo está vivo e em uso”.
(João Cabral de Melo Neto – Museu de Tudo)

Em Taqui Pra Ti

O Museu da Língua Portuguesa ali, no coração da Cracolândia, em São Paulo, em dez anos de existência foi visitado algumas vezes por mim, uma delas na companhia de um índio guarani. Cada vez saí de lá deslumbrado por conta do que presenciara, mas também bastante incomodado, confesso, pelo que gostaria de ter visto e a exposição não me mostrara.

Um trágico incêndio destruiu nesta semana o prédio, os equipamentos e tudo o que era material, mas a alma do Museu foi salva porque todo seu acervo é virtual. No momento em que se discute sua recriação, parece oportuno refletir sobre o que deve permanecer e o que deve ser acrescentado no novo que ressurgirá das cinzas.

O voo da palavra

O que existe de tão fascinante no acervo virtual que merece ser reincorporado? Em primeiro lugar, as formas criativas de musealizar a língua. Qualquer michel-temer sabe que “verba volant”. Como aprisionar o som? É possível pegar a fumaça com a mão e guardá-la no bolso? O que mostrar quando o patrimônio é imaterial e intangível? Como expor símbolos, melodias, ritmos, entoações, cadências e sequências sonoras com significado? O desafio foi respondido com uso de tecnologia de ponta e recursos interativos que fizeram a alegria de quase 500 mil visitantes por ano, incluindo crianças, jovens, estudantes de todos os níveis de ensino.

Essa forma revolucionária, lúdica e até espetacular de tratar a língua portuguesa, de celebrá-la, de dar uma visão sobre sua estrutura e sua importância, de fazê-la amada e admirada, permitiram refinar o próprio conceito de museu e redefinir suas funções. Cada visita me fazia lembrar o Museu Maguta, em Benjamin Constant (AM), onde os Ticuna musealizaram os mitos de criação, que antes só circulavam oralmente, mas que agora estão expostos nos desenhos coloridos dos heróis míticos feitos pelo sábio Pedro Inácio.

– “Museu é um lugar para colorir o pensamento” – concluiu magistralmente o ticuna Diodato Aiambo. É isso. O Museu da Língua Portuguesa coloriu pensamentos, saberes, canções, poesias, lembranças, memória. Por isso, acabou confirmando a redefinição poética de outro ticuna, Liverino Otávio, para quem “museu é um lugar de tudo, um lugar que serve para guardar nosso futuro” ou na representação de seu colega Orácio Ataíde “um lugar que segura as coisas do mundo“.

As cores da voz, os sabores da fala, os cheiros da palavra – tudo estava magicamente exposto no Museu incendiado, que assim “segurava” a língua e com ela guardava nosso futuro. “Existem várias línguas faladas em português” – disse Saramago – e elas estavam lá em todo seu esplendor, ocupando os três andares, as exposições temporárias, a galeria, os totens e painéis, as áreas com atividades interativas e a praça da língua.

Mas se lá resplandecia “a última flor do Lácio” e se lá a diversidade do português estava contemplada, lá não desabrocharam “as primeiras flores de Pindorama“. O Museu levou ao pé da letra  o verso de Bilac:  “És, a um tempo, esplendor e sepultura”. Sepultou outras línguas faladas no Brasil: as indígenas, da mesma forma que as de origem africana e as de imigração.

O desconforto

Esse foi o incômodo que senti, em maior profundidade ainda, quando vi a exposição com os olhos de meu amigo guarani. Ele ficou encantado e ao mesmo tempo decepcionado, porque a exposição do Museu da Língua Portuguesa, numa visão glotocêntrica presente no próprio nome, representava o Brasil como um país unilíngue. Viu que o guarani e demais línguas indígenas só apareciam marginalmente como elementos formadores do português do Brasil, como algo do passado, e não como instituições vivas que, embora discriminadas, continuam sendo faladas, cantadas, rezadas, ensinadas, hoje em nosso país.

O “lugar de tudo” exige um Museu das Línguas Faladas no Brasil e não apenas um Museu da Língua Portuguesa. O foco prioritário do novo museu deve incidir, indiscutivelmente, sobre o português, que é a língua nacional e hoje língua de comunicação interétnica entre os próprios índios. No entanto, deve abrir espaço para as línguas vivas que, embora minorizadas, fazem parte da diversidade linguística do país, com 11 delas já declaradas línguas cooficiais em 13 municípios brasileiros.

O Censo do IBGE de 2010 encontrou 30 línguas de imigração e 274 línguas indígenas autodeclaradas (180 segundo os linguistas) – dados aproximados, pois a definição de língua está sempre em discussão. Três delas foram reconhecidas recentemente como referência cultural brasileira pelo IPHAN: o guarani – falado também em outros países do Mercosul, o Assurini do Tocantins (PA) e o Talián, trazida por migrantes do norte da Itália para o sul do Brasil. Essas três línguas foram documentadas e fazem parte agora do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL). O processo continua com inventários de outras línguas.

O Museu muito ganhará se, ao reservar um espaço ao processo histórico que tornou o português a língua hegemônica do Brasil, representar a situação de contato com mais de 1.300 línguas que eram aqui faladas no séc. XVI. Mais de 1.000 delas foram extintas em cinco séculos, outras resistem hoje com seus falantes, que felizmente teimam em usá-las. Dar visibilidade a essas línguas, mostrar que enriquecem o patrimônio nacional e da humanidade pode contribuir para cessar o glotocídio que continua na discriminação a elas por escolas, mídia, museus e centros culturais.

A história da América – escreveu Bartomeu Meliá – é também a história de suas línguas, que temos de lamentar quando já mortas, que temos de visitar e cuidar quando doentes, que podemos celebrar com alegres cantos de vida quando faladas.

A visão nacionalisteira de “uma pátria, uma língua” deve ser substituída, em um país multilíngue como o Brasil, por“uma pátria, muitas línguas”. O incêndio de cinco séculos que vem devorando essa diversidade precisa ser combatido e, no rescaldo, apagados os focos e as brasas glotocidas que continuam acesas. Que o novo museu ressurgido das cinzas celebre as línguas aqui faladas (ah!, por favor, não podemos esquecer o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, o Laudo Técnico de Segurança e o Alvará de Funcionamento).

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