Recorrente nas campanhas de ódio contra indígenas, “infanticídio” volta a ser tema da ‘grande imprensa’

Tania Pacheco – Combate Racismo Ambiental

A Folha de São Paulo de hoje, 21/12, publica mais uma matéria – “Infanticídio de índios ainda é comum em aldeias do Amazonas” – que com certeza será usada como munição para o preconceito contra os povos indígenas. Mas não só: a reportagem ‘dá uma mãozinha’ também no que toca à criminalização e ao projeto do deputado Henrique Afonso (PV AC) sobre a questão, já aprovado na Câmara e aguardando votação no Senado. Entre os entrevistados na matéria está ainda uma representante da organização Atini, uma das responsáveis pelo falso documentário “Hakani – A história de uma sobrevivente“, tirado e mantido fora do ar por decisão da Justiça.

Não vou discutir o assunto, que aliás já foi objeto de diversas postagens neste blog. Prefiro republicar matéria do Ministério Público Federal, de 12 de maio deste ano. noticiando o pedido para a retirada do vídeo da internet. Vale ler a fundamentação da Ação Civil Pública, linkada ao final, através da qual o MPF pede providências contra as duas organizações religiosas envolvidas na questão (a Atini e a Jocum), “por incitar o ódio e aumentar o preconceito em relação às comunidades indígenas”. E acrescenta, já na abertura:

“Como será visto adiante, o referido documentário é mais um elemento da campanha difamatória da JOCUM e da ATINI em face dos índios brasileiros, bem como uma justificativa para a atuação religiosa e missionária das organizações em aldeias indígenas”.

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MPF/DF pede que entidades religiosas sejam proibidas de exibir documentário difamatório sobre comunidade indígena

O pedido do MPF faz ainda uma referência ao posicionamento da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) que já emitiu nota sobre o documentário. No texto, a entidade afirma que o filme é resultado da encenação de uma entidade fundamentalista norte-americana.

MPF DF

O Ministério Público Federal (MPF) em Brasília pediu que a Justiça proíba a veiculação do documentário Hakani – A história de uma sobrevivente. Para o órgão, o vídeo produzido por duas organizações religiosas pode incitar o ódio, aumentar o preconceito contra comunidades indígenas, além de configurar um abuso à liberdade de expressão. Produzido a partir do drama de Hakani, uma criança da tribo Suruwahá que foi adotada por um casal de missionários, o documentário trata do tema infanticídio.

A afirmação dos pais adotivos – que são os coordenadores de uma das entidades – é que a menina foi salva pelo irmão depois de ter sido enterrada viva. Embora raro, o infanticídio ainda faz parte da cultura de algumas etnias, como a Suruwahá. Pela tradição, são enterradas crianças com deficiências ou com atrasos severos de desenvolvimento. Na ação civil pública, a procuradora da República Ana Carolina Alves Roman pediu que o material deixe de ser exibido, que as entidades sejam proibidas de expor imagens de crianças indígenas e, ainda, que sejam condenadas a pagar R$ 1 milhão de indenização por danos morais coletivos. Os responsáveis pelo vídeo são as entidades Jocum Brasil (Jovens com uma Missão) e Atini: Voz pela Vida.

No pedido a ser analisado pela Justiça Federal, a produção é classificada como “mais um elemento da campanha difamatória em face dos índios brasileiros, bem como uma justificativa para a atuação religiosa e missionária das organizações em aldeias indígenas”. Entre as atividades desenvolvidas pelas duas organizações estão a evangelização e a formação de jovens missionários para atuarem junto aos povos indígenas, em especial na Amazônia, onde o objetivo era erradicar o infanticídio.

A procuradora lembra que, ao ser disponibilizado via internet – no Youtube com link direto do canal oficial da Jocum – , o documentário gerou na população um sentimento de revolta em relação aos povos indígenas. Comentários postados na internet e reproduzidos no documento enviada à Justiça usam expressões como “bichos do mato e barbárie” para se referir ao episódio. Outros sugerem que os líderes das aldeias é que deveriam ser enterrados. Ana Carolina Roman lembra ainda que, embora trate de uma simulação, a produção é capaz de confundir quem assiste ao vídeo. “O atores, todos indígenas, dão à produção um tom de verossimilhança capaz de confundir o telespectador, que acredita estar assistindo a um documentário e, portanto, pensa testemunhar um verdadeiro infanticídio”, afirma em um dos trechos da ação.

O pedido do MPF faz ainda uma referência ao posicionamento da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) que já emitiu nota sobre o documentário. No texto, a entidade afirma que o filme é resultado da encenação de uma entidade fundamentalista norte-americana. “Não é uma campanha pró-vida, mas uma tentativa de criminalização das coletividades indígenas, colocando-as na condição permanente de réus”, classificou a ABA. Diante dos danos causados pela exibição do documentário, o MPF solicitou a suspensão imediata da veiculação por meio de liminar.

Clique AQUI para conferir a íntegra do pedido do MPF.

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Assessoria de Comunicação
Procuradoria da República no Distrito Federal

Destaque: Foto de Claudia Andujar, reproduzida da internet.

Comments (1)

  1. É uma pena que nós mulheres e homens não indígenas não tenhamos a mesma sensibilidade quando se trata de nossas crianças. Diariamente estas pequenas são violentadas, abandonadas e vivem mendigando nas ruas e nada ou quase nada fizemos. Mas é uma estratégia sutil para tirar o foco de nossos problemas e cuidar das vidas dos outros povos. Então fizemos um bonito papel da mídia só que para inglês vê.
    Que lastima!

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