CIR decreta Luto pelo falecimento da professora Natalina da Silva Messias, liderança tradicional em Roraima

CIR

Aos, 57 anos, falece em Roraima uma grande liderança tradicional, Natalina da Silva Messias, do povo indígena Macuxi, da comunidade indígena Barro, região Surumu, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, mais conhecida como professora Natalina. Por essa razão, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) em nome dos Tuxauas, coordenadores regionais, professores, agentes indígenas de saúde, mulheres, jovens, crianças e demais lideranças indígenas de Roraima presta solidariedade aos familiares e decreta luto oficial na organização por dois dias, 21 e 22.

Após quatro meses enferma no Hospital Geral de Roraima (HGR), vítima de um tumor cerebral, a meia noite de hoje, 21 de outubro, veio a falecer, deixando esposo, filhos, netos, sobrinhos e demais entes familiares.

O velório ocorre em sua residência em Boa vista, rua Ademario Santos, 406, bairro Caimbé, até às 14:00, quando será translado para a comunidade indígena do Barro(local de origem), região do Surumu, município de Pacaraima, onde será sepultada amanhã, às 8:00.

Por essa triste perda, o movimento indígena de Roraima se encontra em luto, pois parte para a vida eterna, a neta de Makunaima, grande guerreira que lutou incansavelmente ao lado de anciãos e anciãs, em prol dos direito dos povos indígenas, principalmente pelo direito a terra. “Sem a terra não temos vida, não temos educação, não temos saúde, não temos vida”, expressões ditas pela professora Natalina em diversas ocasiões do movimento indígena.

A última vez que apresentou –se diante do movimento indígena de Roraima foi na 44ª Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, realizada em março, no Centro Regional Lago Caracaranã, quando na ocasião da mesa com o tema “ Diálogo das Lideranças Tradicionais” prestou homenagem as lideranças indígenas e os presenteou, com uma mandala indígena, confeccionada pelo artista plástico Bartô Macuxi, reflexo de luta, de união, de trabalho e de conquista dos povos indígenas.

Natalina da Silva Messias, símbolo de luta pela Educação Escolar Indígena em Roraima, era professora formada pelo Magistério Indígena, graduada em Licenciatura Intercultural com habilitação em Ciências Sociais, pelo Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena da Universidade Federal de Roraima (UFRR), atuou por 8 anos como Chefe da Divisão de Educação Escolar Indígena, da Secretaria de Educação do Estado de Roraima(SECAD), membro-fundadora da Organização dos Professores Indígenas de Roraima(OPIRR), diretora e gestora de diversas escolas indígenas e outras diversas funções que exerceu ao longo da sua caminhada em defesa das causas do movimento indígena de Roraima.

O seu legado de sabedoria, de conhecimento e de experiências ficam de exemplo às futuras gerações, para que deem continuidade na luta que, assim com ela e demais grandes líderes de Roraima, deixaram como ensinamento e aprendizado.

Siga em paz, Anike`pa, neta de Makunaima.

Saudades eternas!

Foto: Mayra Wapichana

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  1. Na trilha da Educação Indígena

    A história do caminho trilhado pela professora indígena, cujas primeiras experiências foram iniciadas em escolas unidocentes de 1ª. a 4ª. Séries. Depois em escolas do Ensino Fundamental de 5ª. à 8ª, no interior das terras indígenas. Essa a semente que a levou a ser chefe da Divisão de Educação Escolar Indígena da Secretaria de Educação, Cultura e Desportos do Estado de Roraima.

    A trilha percorrida pela professora lhe deu condições de crescer como indígena e como profissional, cujo compromisso com o seu povo fez a história da Educação Escolar Indígena do estado.

    A professora Natalina da Silva Messias, do povo macuxi, que sou eu, pretendo descrever como foi o percurso dessa trilha. Sou da Comunidade do Barro, região de Surumu, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que fica a 200km da capital do estado.

    Naquela época não tínhamos estradas, a terra não era homologada. Os moradores do Barro se afastavam à medida que entravam os brancos para morar na Vila Pereira, região Surumu. A única escola que existia era p. José de Anchieta, da Missão Surumu, dos padres do Instituto Missionários da Consolata, onde estudei até a 7ª. série. Naquela época a educação significava ensinar a ler e escrever em português. Não existia a preocupação com a valorização cultural dos indígenas. Nós aprendíamos somente matemática, leitura, escrita e cumprimento de horários. Não havia ensinamento sobre a língua indígena, os costumes e tradições. Mesmo assim éramos felizes e eu queria estudar.

    O meu pai Silvestre Alberto Messias, macuxi, passou 25 anos sendo tuxaua da comunidade do Barro. A minha mãe Cacilda Henrique da Silva, wapichana, acompanhava meu pai em todos os trabalhos, que naquele tempo eram todos unidos. A minha avó Cecília Messias, macuxi, era rezadeira e ensinava a fazer panelas de barro e redes de fios. Eles nunca estudaram, mas nos orientavam para trabalhar. Pois com a chegada dos brancos eles temiam perder as terras, pois não sabíamos defender a nossa terra. Eles diziam: “Quem planta no seu quintal, têm e assim não mexe nas coisas dos outros”. A nossa língua era chamada pelos brancos de “gíria”, e assim, meus pais com vergonha não queriam que os filhos falassem a língua macuxi.

    No final dos anos 70, quando terminei a 7ª. série, fui convidada pela Secretaria de Educação para trabalhar na comunidade do Socó II, região das Serras (hoje Terra Indígena Raposa Serra do Sol), quando a estrada estava começando. A viagem era só de avião. Fui a 2ª. professora da escola construída pela própria comunidade. Como professora de 3ª. a 4ª. série, iniciei a minha profissão de educadora. Comecei a aprender mais do que ensinar, sem preparação nenhuma. Nos primeiros dias fiquei perdida até conhecer toda a comunidade. Eram 10 famílias que falavam a língua macuxi, alguns jovens somente falavam português.

    Eu tive uma lição de vida. É a minha referência até hoje. Ao entrar na igreja da comunidade, encontrei todos reunidos cantando. Havia um cego, com um guia de 8 anos, falando na língua macuxi sobre os trabalhos e o tuxaua Antonio Simão traduzindo para o português. O comportamento do cego, animando a comunidade me sensibilizou. Tudo era combinado na reunião e depois tomavam damorida e caxiri na casa marcada.

    A caça e a pesca, a coleta de saúvas depois das chuvas, as mães fazendo beiju eram as atividades do cotidiano. E a professora era convidada para participar de tudo. Foi aí que descobri a nova metodologia da prática e participação. Descobri que a dificuldade não estava nos alunos e sim na professora que precisava de um jovem para intérprete, por não saber falar a língua macuxi. Um novo processo de educação indígena estava começando sem nenhuma teoria.

    Novas experiências foram acontecendo nos anos 80. Como professora segui dando aulas nas escolas de fazendas. Havia uma minoria de alunos não indígenas entre os indígenas, filhos dos vaqueiros. As aulas eram restritas a ensinar a ler e escrever dentro da escola. Para acompanhar meus filhos que estavam estudando na 5ª. e 8ª. séries e meus pais moradores perto, solicitei transferência para a escola da vila Pereira, que antes era a escola da missão. Outra situação inesperada, cada professor fazia seu plano de aula, não havia participação dos pais e nem planejamento conjunto com o diretor. Para os alunos era a metodologia da decoreba. Experimentei a discriminação sobre os indígenas de alguns colegas professores brancos na distribuição de merenda, das fardas e nas avaliações de aprendizagem. Eu era impedida de participar das reuniões, assembléias e seminários indígenas. A maioria dos moradores da vila era contra a luta pela terra. Ao refletir sobre essa realidade nunca perdi a esperança de um dia ver realizado o sonho dos meus verdadeiros mestres: tuxauas, pajés, rezadores, lideranças, tendo os nossos professores indígenas e a escola nossa, do nosso jeito.

    Por determinação de ajudar o povo indígena e iniciativa própria, comecei a participar dos encontros, reuniões e assembléias. As lideranças discutiam cada vez mais sobre a educação que devia mudar e sobre os direitos da educação indígena. Reconheciam que as escolas gerenciadas por professores brancos não estava dando certo. Preparavam os alunos para competir no mercado de trabalho, para sair da comunidade e ir para a cidade. Os jovens que voltavam da cidade traziam outros costumes da cultura não indígena. Eles não conseguiam mais trabalhar com os pais.

    No final de 80 tive uma oportunidade na vida. Comecei a cursar o Magistério Normal Parcelado para não indígenas, na escola de Formação de Professores de Boa Vista. O curso era fora do meu contexto, cujo objetivo era capacitar professores sob a exigência das Leis de Diretrizes e Base – LDB (1996), “todos os professores tem que ter habilitação”. Para mim foi importante, pois a técnica me ajudou a refletir sobre a educação que realmente eu queria me dedicar e ajudar meu povo, considerando a minha experiência específica de uma comunidade indígena.

    Em 1990 fui convidada a participar do encontro do Conselho de Professores Indígenas do Amazonas e Roraima – COPIAR, em Manaus. Pela primeira vez ouvi falar de currículo próprio, auto-sustentação, valorização da identidade, autonomia e interdisciplinaridade. Fizemos um trabalho sobre planejamento de aula com várias disciplinas que jamais esqueci. A partir de então comecei a analisar duas situações: a escola não indígena forma as pessoas para competir e trabalhar numa sociedade capitalista, que só pensa no dinheiro e, a escola indígena prepara as pessoas para a vida, para viver a tradição e valores próprios.

    Outra experiência importante foi o trabalho com os parentes wapichana, na Comunidade Malacacheta, Terra Indígena Malacacheta, região Serra da Lua, 35km de Boa Vista. Na Escola Sizenando Diniz me fortaleci quando encontrei o jeito de educar que sempre sonhei: a metodologia dialogada, flexiva e participativa. Ao ver a relação das mulheres, homens, jovens e crianças participando preencheu um vazio que existia na minha mente. A educação específica e interdisciplinar deveria ser assim. Todas as lideranças da região participavam do planejamento da escola no Centro de Formação Wapichana. No final do ano todos avaliavam o trabalho, principalmente do diretor, dos professores e alunos. Em mim se confirmou a gestão participativa, como trabalhar a auto-sustentação, a valorização da identidade e autonomia da comunidade.

    Após dois anos pedi transferência para Boa Vista, pensando em melhoria para os filhos e fui trabalhar na escola Jesus Nazareno, do bairro Caranã, na modalidade Educação para Jovens e Adultos – EJA, com jovens na maioria não indígenas. Eles estranharam no começo por receberem uma professora indígena. Esta foi a oportunidade para conquistá-los e trabalhar as diferenças culturais de maneira pedagógica. Contava a história do meu povo e explicava meu compromisso profissional com a escola e os alunos foram mudando o jeito de pensar. Conclui que a educação é o caminho para ajudar as pessoas compreenderem as diferenças, mudar de idéias, se trabalharmos com seriedade a realidade.

    Na escola Jesus Nazareno trabalhávamos com listagem de conteúdo, não nos foi apresentado nenhuma proposta pedagógica. A maior dificuldade foi dialogar com os pais, que se importavam apenas com as notas e não a formação das pessoas.

    O Movimento de Educação Escolar Indígena cresceu em todo o Brasil. No final de 1990, os professores indígenas debatiam em todos os encontros o Plano Nacional de Educação, as Lei de Diretrizes e Base – LDB e Parecer 14/99 do CNE. Com as lideranças e comunidades começamos a nos articular para transmitir os temas tratados nos encontros. Na Assembléia dos Tuxauas em 1999, fui convidada para trabalhar na Escola Indígena Siminiyó, na comunidade Cantagalo, região Surumu, 220 km da capital. Ao chegar havia a Assembléia Regional onde a diretora deixava a sua função. Os professores foram consultados para assumir a função, mas não aceitaram. Ao me consultar aceitei o desafio da gestão escolar. Não foi difícil por já ter compromisso com o meu povo. Se eles queriam ajuda, nós juntos iríamos administrar a escola.

    Na Escola Indígena Siminiyó, percebi que era hora de colocar na prática as experiências já vividas e o aprendizado da educação indígena dos wapichana. Realizamos um debate sobre o funcionamento da escola, os conteúdos a serem transmitidos. Fizemos o planejamento das ações com as lideranças locais e regionais. Havia professores e alunos que não concordavam com a metodologia participativa por estarem acostumados a depender dos livros e não sabiam trabalhar com as diferenças. Mesmo assim abrimos a participação para Funai, Diocese e passamos a programar novos projetos culturais, de auto-sustentação (piscicultura, avicultura, fruteiras, etc.), que ajudou a autonomia da comunidade. A Escola Siminiyó fez intercâmbio com a Escola de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, da Missão Surumu. Os estudantes de agronomia e pecuária estagiavam na comunidade Cantagalo e contribuíam para os conhecimentos dos alunos locais.

    A Escola Siminiyó não tinha uma proposta pedagógica escrita, mas na prática ela existia. Havia regimento interno, calendário elaborado com a comunidade e a região. Trabalhando juntos fomos sistematizando melhor o calendário, a carga horária, os planos de aula, conteúdos e metodologia, analisando nossos limites e reafirmando a educação diferenciada.

    Passaram-se dois anos na Escola Indígena Siminiyó, quando fui convidada pela Secretária Ana Maria Lima de Freitas para assumir a chefia do Núcleo de Educação Indígena da Secretaria de Educação, em Boa Vista. O cargo só era ocupado por quem tinha nível superior, diziam os brancos. Um desafio maior apareceu, assim fiz valer a força das lideranças quando os consultei e eles se comprometeram a dar apoio. Essa função sendo exercida por 4 anos contribuiu para fortalecer a organização dos professores indígenas e escolas indígenas do Estado de Roraima.

    Natalina da Silva Messias – Falecida em 21 de outubro de 2015
    Viva na memória da História da Educação Indígena e Educação Escolar Indígena de Roraima e do Brasil!
    Chefe da Divisão de Educação Indígena
    Departamento de Desenvolvimento e Políticas Educacionais
    Secretaria de Educação, Cultura e Desportos- Roraima

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