Chagas do Mar, Chagas do Sertão, Chagas da Cidade: a moléstia é a mesma!

Raquel Rigotto¹ – Núcleo TRAMAS/UFC

Quando a gente olha o Mapa de Injustiça Ambiental e Saúde do Ceará, vê um tanto de conflitos concentrados na zona costeira: é carcinicultura, é resort, é eólica, especulação, desapropriação de comunidades tradicionais e povos indígenas…

Por trás de cada sinal daquele de conflito, tem também uma comunidade que tomou o problema nas suas mãos, juntou argumentos e pessoas, afirmou seus direitos, arregaçou as mangas e foi à luta! Seu grito a colocou no Mapa!

E no sertão? O que está acontecendo no nosso semi-árido?

Se a gente subir um pouquinho da foz pelo Rio Jaguaribe, por exemplo, vai encontrar  grandes “fábricas” de frutas, como dizem os moradores da Chapada do Apodi, porque são fazendas que vieram, em boa parte, de outros países, para cultivar uma fruta só, em grandes extensões de terra. Quem conhece bem os problemas que a carcinicultura tem trazido para as comunidades de [email protected] e [email protected] vai ver como o modelo de “desenvolvimento” segue um caminho muito parecido, na zona costeira ou no sertão.

As empresas de fruticultura chegaram no final dos anos 1990, foram logo comprando terras de camponeses ou invadindo terras públicas. Foram logo desmatando a caatinga (como fizeram com os manguezais e carnaubais), substituindo a biodiversidade pela monocultura para exportação (fruta, camarão…). E com isso veio a “praga” (quem será mesmo a praga?!), que vai ser combatida com enormes volumes de muitos tipos de venenos (também o camarão não teve uma virose? E o metabissulfito). Gastam muita água, que tiram tanto do rio Jaguaribe como do Aqüífero Jandaíra, águas subterrâneas…

E aqueles que perderam as suas terras (assim como aqueles que já não têm mais seus manguezais íntegros) acabaram tendo que ir se “fichar” nestas “fábricas”: acordam bem cedo, andam às vezes mais de uma hora de ônibus até chegar na fábrica, levam a marmita para comer mais tarde, às vezes já fria ou azeda. Trabalham muitas horas por dia, têm que cumprir metas de produção… O salário é “tão bom” que tiveram que fazer uma greve por cesta básica (o salário não tem garantido nem a alimentação da família?!), afora as humilhações, o cansaço, as dores no corpo, e os venenos.

No assunto dos venenos, tem uma coisa muito grave: eles jogam veneno de avião, por cima das plantações de banana, e das comunidades e canais de água da Chapada. Uma estimativa feita por pesquisa da UFC chegou a mais de 4.000.000 de litros de calda tóxica em 10 anos. Juntando com os outros venenos de trator, de pulverizador costal, deu no que deu: a análise da água que abastece as comunidades também mostrou contaminação, assim como a água do aqüífero.  A saúde dos trabalhadores e das comunidades no entorno destas empresas, claro, também fica prejudicada.

Tudo isto mexe muito com a vida das pessoas: famílias que são obrigadas a migrar e que às vezes se desestruturam, trabalhadores que vêm em busca de trabalho, crescimento da prostituição e do uso de drogas, e tantas outras mudanças no modo de vida das comunidades, que atingem até a saúde mental, fazem os idosos sofrerem, deixam os jovens sem rumo. O passado, a cultura, as tradições, o futuro…

As fazendas não duram muito: cerca de oito-dez anos e a terra se nega a produzir, o solo se degrada, as pragas avançam. Aí eles deixam aquela terra para trás e se expandem para uma terra novinha, que também vai ser sugada até secar. Parece com a carcinicultura?

Com tudo isto acontecendo na Chapada, e o DNOCS, o PAC e o governo estadual já estão reproduzindo a mesma história infeliz no Tabuleiro de Russas, agora expulsando comunidades que há mais de 30 anos constroem uma rica história de convivência com o semi-árido, de agroecologia, como Lagoa dos Cavalos, para abrir mais terra para estas transnacionais. Também a carcinicultura recomeça em outros locais depois de tanto estrago, não é?

E a serra da Ibiapaba, agora com grandes empresas de floricultura? E se a gente for procurar saber o que está acontecendo nos outros Agropolos projetados e implantados pelo governo do Ceará?

Carcinicultura e fruticultura, hidronegócio e agronegócio. Perda e concentração da terra, degradação e contaminação do ambiente, trabalho precário, mudança no modo de vida, doenças e intoxicações, violência, migração compulsória, desagregação das famílias, etc.

As chagas do Mar e do Sertão têm ainda mais pontos em comum: o dinheiro dos bancos públicos, como o BNB e o BNDES; as águas da transposição do São Francisco; a condescendência da SEMACE e de outras fiscalizações… E vc pode ajudar a completar esta lista!

Há uma lógica estrutural que explica e produz tanto as chagas do Sertão quanto as do Mar. É uma cultura que, nas mãos dos poderosos, se transforma em Lei, Programa, ação:

  • Um jeito de olhar a Natureza só pensando no que pode tirar dela para lucrar
  • Um jeito de olhar as pessoas e só ver nelas mão de obra barata para trabalhar e produzir lucro para o patrão
  • Um jeito de olhar e não ver as comunidades camponesas e de [email protected] [email protected], de [email protected] e [email protected], os povos indígenas e afro-descendentes: negam a existência, o valor, o modo de vida, a cultura, os direitos territoriais e sociais
  • Um jeito de anunciar a chegada destes empreendimentos como se fosse a nossa vez de entrar na modernidade e nos beneficiar do progresso
  • Um jeito de nos iludir com a promessa de emprego e de esconder o “outro lado” destes empreendimentos,
  • Um jeito de ir tomando conta do Estado, dos órgãos e técnicos do governo, do parlamento, das leis, dos meios de comunicação, e ir concentrando poder e dinheiro.

Tudo isto é embrulhado num papel bem bonito chamado desenvolvimento, e oferecido ao Sertão, ao Mar e às Cidades. Sim, porque é nas cidades que vão estourar todas estas pressões sobre os ecossistemas e o povo, alimentando a cadeia da pobreza, da falta de moradia e saneamento, da violência, dos horizontes perdidos da juventude…

Chagas do Mar, Chagas do Sertão, Chagas da Cidade: a causa profunda é a mesma.

Também os Povos do Sertão erguem a sua voz e resistem, ainda mais alto quando tentam calá-la como fizeram com o líder comunitário e ambientalista Zé Maria do Tomé, assassinado em 21 de abril deste ano.

Forças dos Povos do Mar, forças dos Povos do Sertão, forças dos Povos da Cidade: elas podem se entender para tratar estas chagas! Como expressar isto em nossas lutas e ações?
_
¹ Raquel Rigoto é Médica, Professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará e pesquisadora do Nucleo Tramas que compõe do FDZCC.

http://www.portaldomar.org.br/blog/portaldomar-blog/categoria/opiniao/chagas-do-mar-chagas-do-sertao-chagas-da-cidade-a-molestia-e-a-mesma

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.