Cordialidade cínica

Inez Lemos*

O Senado surge no Império Romano como assembléia de patrícios, constituída por magistrados, senhores senis e experientes que primavam pela felicidade coletiva da pólis. Para Aristóteles, a política é o desdobramento natural da ética, quando cabe aos políticos se ocuparem com a felicidade da pólis, quando a virtude está no meio-termo – condição ideal para se viver bem, evitando os extremos. O vício é efeito da falta ou do excesso. República é um sistema de governo que visa a democratizar o Estado, tornando-o público e priorizando os interesses dos cidadãos que elegem seus representantes. Aristocracia é um governo monopolizado e controlado por um grupo de privilegiados, representantes de uma casta, fidalguia com foros de nobreza. Cordialidade cínica é o comportamento que prevalece hoje na política brasileira, quando políticos, temendo a lei, preferem absolver alguns corruptos a serem também fiscalizados e condenados, livrando os colegas das acusações. Cordialidade – traço que Sérgio Buarque de Holanda apontou como do brasileiro, é aqui identificado como permissividade perversa.  

Roriz, Arruda, Maluf, Collor, Calheiros. Todos já foram processados em suas trajetórias políticas, e alguns desejam se reeleger nas eleições de 2010. Pelo visto, vão encontrar uma brecha na Lei do Ficha Limpa que impede a candidatura de políticos condenados por decisão colegiada. É comum, no Brasil, os políticos dar um jeitinho e escorregarem, escapulir e continuar livres para roubalheiras e falcatruas. Calheiros é senador pelo estado de Alagoas (PMDB). Cresceu em Murici entre pobres e ricos, usineiros e bóias-frias, coronéis e retirantes. Ali fez escola para assumir o senado, lugar privilegiado, no Brasil, para se construir Impérios. Entre estratégias e artifícios escusos, tapinhas nas costas, propinas, o moço alçou vôo. Collor e Calheiros representam o atraso implantado pelos coronéis do nordeste. Deflagra o Brasil arcaico e faz inveja aos que temem a lei – somente o perverso e destemido que desafia a lei, esbanja cinismo e hipocrisia. Do outro lado, as vítimas, ora das enchentes, ora da seca, afundam na miséria. Alagoas é o nosso Haiti.

A seca tem poderes ambíguos – ao provocar a miséria, abre espaço para os espertos explorarem a população e sua condição de miserável. Contudo, a seca gera riqueza e cria mecanismos de desvio de dinheiro público. É uma indústria que sangra anos lama do  subdesenvolvimento político do qual Alagoas é apenas mais um exemplo. O Brasil tornou-se refém da ambição e da mentalidade atrasada que se alastrou pelos latifúndios e usinas de açúcar. A desfaçatez da elite agrária deixa herdeiros. Muitos políticos conservam traços do escravismo e do latifúndio: casa grande & senzala, coronelismo, voto de cabresto, currais eleitorais. O voto era garantido pelo fazendeiro em troca de favores. Foi nessa escola que muitos políticos se diplomaram. Um povo que permite tanta descompostura e perversão de seus políticos, ou está com a autoestima em frangalhos, ou perdeu as forças para lutar. O Brasil é hoje uma nação desesperançada – cansada de esperar dos homens que ocupam o poder, ética. Acontece que política exige mais que esperança, exige uma opinião pública forte, participativa e atuante, tudo que só agora estamos construindo.

Enquanto o Brasil não combater a desigualdade social de forma efetiva, com educação de qualidade, escolas técnicas, emprego e oportunidades, não banir o foro privilegiado, riscando de nossa Constituição o tratamento desigual e perverso, sobretudo a imunidade parlamentar, nunca iremos mudar de posição. Sempre seremos um país violento, inseguro e injusto. País cujo senado, além de pouco operante, é um dos mais caros do mundo. Enquanto o garoto da favela ligar a televisão e for incentivado por deputados e senadores a roubar e matar, dificilmente a violência vai diminuir no Brasil. Eles apenas colocam em prática o que os poderosos realizam há anos. O alvo será sempre o indefeso, o mais fraco – pobre, negro, mulher e homossexual.

Os governantes sempre trataram o povo com desdém e descaso. A imagem do Brasil é de uma mãe que, sem escrúpulos, discrimina uns filhos e privilegiam outros – rapagões que só sugam o leite dos menores. Os nordestinos, cuja vida sempre foi severina, não mereciam assistir à espetacularização dos bandidos, heróis da desfaçatez e da arrogância. Muitos devem se envergonhar de seus patrícios emplumados em seus conservadorismos. Aos retirantes, resta desbravar outros sertões, pois Passárgada só existe para os amigos do Rei. Os políticos há muito vem vendendo a alma aos demônios. Demônio é aquele que, na falta, viciou-se no excesso. Excesso de riquezas, cinismo e desonestidade.

Mais que denunciar e chamar a nossa atenção, devemos fazer uma revisão nas posturas cínicas e antiéticas que temos demonstrado. Cinismo é isso, além de não assumirmos os erros, ainda queremos deles tirar alguma vantagem. No Brasil do “jeitinho”, está cada dia mais difícil cobrar da moçada ética e cidadania. Se a melhor forma de educar é por meio de exemplos, onde que os jovens irão encontrar disponíveis posturas que os deixem honrados e orgulhosos? As atitudes que dominam a cena política são as piores – senadores e deputados envolvidos em crimes se elegendo. A questão está na impunidade aos infratores. Errar é humano, contudo, quando deixamos de submeter o sujeito em correções e punições, eternizamo-lo na anomia – atos perversos, fora da lei.

Como o Brasil foi se tornando um país frouxo no cumprimento das leis? Quando os políticos autorizam um colega envolvido em corrupção a continuar legislando, sem sofrer sanção, eles estão formando uma nação de corruptos e criminosos. Não existe autoridade desvinculada da figura paterna ou de quem a exerce – presidente, senador, pai, professor. Ela resulta de mecanismos eficazes na regulamentação do excesso de gozo. A lei, para ter eficácia, tem que valer para todos. Quando não oferecemos aos jovens exemplos de honestidade e respeito ao outro, convidamo-los a usar a violência e o poder para atingir seus objetivos. Como transmitir aos jovens a lei simbólica, exigindo que caminhem na legalidade? Sabemos que a força é insuficiente para impor respeito e cobrar ética, cidadania.

Ética passa pela alteridade, quando o outro entra em cena. Para que a ética prevaleça numa comunidade, ela tem que lhe conferir sentido. Onde está o sentido de se viver num fundamentalismo consumista e competitivo, em que a maioria quer vencer a qualquer custo? Quais os valores fundantes de nossa sociedade? Educamos os filhos em valores que não estão relacionados ao espaço público. Os interesses privados sufocam interesses como solidariedade e amizade, colocando em risco a vida na comunidade. O dia em que perdermos o elo que une uma nação, perderemos também a autoridade necessária na condução de um país. Mergulho na desordem absoluta, no desrespeito ao outro. Ética é a arte do bem viver.

A lógica da cidadania deslocou-se para a ótica do consumidor. Se o sujeito for endinheirado será bem recebido, querido e respeitado nos estabelecimentos comerciais. O Brasil sempre dispensou tratamento diferenciado aos colarinhos brancos, corruptos ou não. É quando o garoto descobre que, para se dar bem, basta ser rico, poderoso e famoso – valores que certamente vão lhe garantir mulheres bonitas, reconhecimento e deferência. Estamos ensinando ética como se fosse algo que, junto a direitos e privilégios, se compra. O Brasil vive uma esquizofrenia social – de um lado as classes abastadas reivindicam privilégios, de outro o Estado não garante os direitos às classes de menor poder aquisitivo.

A criminalidade envolvendo jovens deflagra a cultura perversa que sustenta o imaginário do brasileiro – as contravenções sociais dos políticos e dos pais os desobrigam a respeitar as regras da boa convivência. A autoridade sustenta-se no imaginário que os filhos (cidadãos) constroem do pai privado e do pai social. O pacto social só se opera por meio do pacto edípico. O outro não pode ser visto como possibilidade de ganho e desfrute, alguém que porta objeto ou possui algo que nos provoca inveja e desejo. Reivindicar respeito é recusar privilégios. É não disseminar revolta, é saber conquistar bens materiais sem provocar inveja, frustração. A riqueza é pernóstica quando persiste no meu próximo o sentimento de abuso, de ganho indevido, desonesto. Como não implantar no próximo o desejo de ocupar o lugar de privilegiado, daquele que se deu bem e, sem constrangimento, circula na ilegalidade? Na selva cínica, salve-se quem puder, a menos que os pais incluam, na mamadeira do filho, ética todo dia. Cinismo cordial é veneno que corrói a alma social.

* Psicanalista, autora de “Pedagogia do consumo: família, mídia e educação” (Autêntica). Email:[email protected]

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