Podemos é a grande surpresa das eleições espanholas

Podemos conseguiu, além de uma excelente votação em toda a Espanha, votações surpreendentes no País Basco e na Catalunha, duas regiões com fortes movimentos nacionalistas que, porém, acabaram relegados a posições inferiores

Por Raphael Tsavkko Garcia, de Bilbao (Espanha), no Opera Mundi

O Podemos é a grande surpresa nas eleições espanholas. Pese a vitória do PP (direita), atualmente no governo, seus votos são insuficientes para a formação de um governo sem apoios, sendo necessária uma coalizão com o Ciudadanos (que não alcançaria a maioria absoluta) ou com o PSOE, o que não seria impensado. O Podemos conseguiu obter mais votos que o PSOE, pese ter obtido um menor número de cadeiras e o Ciudadanos, depois de um crescimento astronômico acabou como quarta força, aquém do que esperavam, mas muito além das previsões de poucos meses atrás.

A Esquerda Unida (IU/UP, com o Partido Comunista Espanhol como sócio majoritário), eterno terceiro partido nas disputas eleitorais, viu sua votação minguar em dois terços e o partido foi reduzido à quase insignificância parlamentar.

Podemos conseguiu, além de uma excelente votação em toda a Espanha, votações surpreendentes no País Basco e na Catalunha, duas regiões com fortes movimentos nacionalistas que, porém, acabaram relegados a posições inferiores. No País Basco o resultado do Podemos surpreende depois que crises internas terem levado à demissão de toda a direção regional apenas poucas semanas antes das eleições – conseguiram a segunda posição na região, pese terem vencido em número de votos -, ao passo que na Catalunha, onde se tornou o primeiro partido, a imagem de Ada Colau, a prefeita de Barcelona, ajudou a alavancar os votos da formação, assim como a abstenção das CUP (partido de esquerda nacionalista radical) que não participa de eleições espanholas, mas apenas das eleições catalãs.

É possível que muitos votos que poderiam ir para as CUP tenham acabado impulsionando a votação do Podemos, dada a desconfiança que existe em relação à ERC (Esquerda Republicana, segundo lugar na eleição catalã) por sua aliança regional com a Convergência/Democracia e Liberdade (que acabou com uma votação aquém de todas as expectativas), partido de direita liberal capitaneado por Artur Mas.

É preciso, ainda, lembrar que historicamente os partidos “estatais”, ou seja, PP e PSOE, tem votação melhor nas eleições espanholas do que nas eleições regionais, devido a uma série de razões que vão desde a abstenção das CUP (na Catalunha), como também um certo desânimo de muitos nacionalistas em participar de um processo que não pensam lhes fazer diferença. No fim das contas a soma de votos de Converência/DL e ERC não variou negativamente de forma consistente na Catalunha, ao passo que o Podemos retirou votos de todos os partidos (menos ERC). No País Basco o Podemos acabou por absorver parte significativa do eleitorado da esquerda nacionalista.

Dado mais importante da noite eleitoral foi o aparente fim do bipartidarismo que persiste desde as primeiras eleições democráticas pós-ditadura franquista. Os discursos tanto de Podemos quanto de Ciudadanos, pese suas disparidades ideológicas, se assemelhavam na insistência em reclamar votos para pôr um fim ao e para buscar pavimentar novas vias para solucionar os problemas de um país que ultrapassa os 40% de desemprego juvenil e que vem enfrentando graves problemas sociais há anos e que não poderiam ser solucionados seja por PP, seja por PSOE (sua contraparte de centro-esquerda que, no entanto, é encarada como apenas mais do mesmo).

O Podemos, em campanha, defendeu uma mudança do sistema eleitoral que historicamente tem servido à promoção do bipartidarismo. Resta saber se terá votos para chegar a tal ponto. É fato que a diferença de votos entre Podemos e PSOE não chegou aos 3%, mas a diferença em termos de cadeiras no parlamento se apresenta de forma totalmente distorcida.

No País Basco a coalizão de esquerda nacionalista EH Bildu foi a mais prejudicada pela chegada do Podemos, ficando atrás desta formação – e mesmo do PSOE – e vendo sua votação se reduzir de forma acentuada. É preciso ter em mente que muitos votos perdidos pelo EH Bildu – formação mais votada nas últimas eleições espanholas na região – podem ser explicados pelo ânimo de mudanças que tomou conta do Estado Espanhol e o pedido do voto útil. O voto no Podemos, em tese, impulsionaria mais um processo de mudança global do que um voto em um partido local com representação limitada. Estes resultados, porém, podem não influenciar no processo pela independência da Catalunha, na verdade caso um governo com o Podemos seja formado pode até facilitar o diálogo entre o governo central espanhol e a Generalitat (governo catalão).

Em Navarra (politicamente uma entidade separada do País Basco, mas encarada como parte histórica desta entidade) a vitória, como esperada, é do PP em coalizão com a UPN, partido de direita local, seguido pelo Podemos e PSOE. A soma de votos da esquerda, desde a nacionalista (EH Bildu e Geroa Bai) à espanhola (Podemos e PSOE) que, juntos, governam tanto a região quanto sua capital Pamplona, supera enormemente os votos de UPN-PP, é bom lembrar.

Futuras coalizões serão debatidas nos próximos dias, e os cenários mostram-se complicados e confusos. O PP perde uma quantidade significativa de votos e sua maioria absoluta, assim como o PSOE, que perdeu votos, mas sustentou a segunda posição, e nenhum dos dois maiores partidos será capaz de governar sozinho. O Podemos sai como grande vencedor, mesmo tendo obtido resultado inferior ao de muitas pesquisas que colocavam o partido à frente do PSOE, ao passo que o Ciudadanos decepciona. Consegue uma votação significativa, porém aquém de toda a propaganda e expectativa criada e também insuficiente para servir como sócio essencial em futuras coalizões.

O PP não seria capaz de alcançar a maioria absoluta com o Ciudadanos e dificilmente seria capaz de atrair outros partidos minoritários para uma aliança ampla (ideologicamente a Convergência/DL seria um parceiro possível, mas dado o processo de independência catalão em curso parece pouco provável que sequer cheguem a dialogar acordos, assim como o PNV basco poderia ser um parceiro), ao passo que PSOE e Podemos poderiam, juntos, formar uma maioria em aliança com o ERC catalão (também com problemas em relação ao movimento pela independência da Catalunha, dado que o PSOE se mostra tão intransigente quanto o PP em relação ao processo) e com a Unidad Popular (Esquerda Unida), dentre outras formações menores (como os nacionalistas de esquerda EH Bildu que, porém, são rechaçados pelo PSOE).

Os pontos de fricção são inúmeros, assim como a lista de partidos a serem rechaçados por um lado ou por outro do espectro político pelos partidos majoritários. A questão nacionalista da Catalunha seria uma questão em uma possível coalizão ampla de esquerda. O fato é que o ERC possui votos essenciais para uma coalizão PSOE/Podemos. O PSOE adota uma posição tão intransigente em relação ao direito catalão à independência quanto o PP, o que dificultaria a participação da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) – quarta força no parlamento – em uma coalizão de esquerda.

O Podemos em geral possui uma posição menos intransigente em relação à independência da Catalunha, assim como em relação à questão dos presos políticos bascos – inclusive possivelmente o Podemos recebeu votos de eleitores tradicionais do nacionalismo catalão e basco de esquerda-, mas necessitando do PSOE uma aproximação com formações do tipo se torna complicada, assim como a formação de um governo. Uma questão importante será o preço cobrado pelo Podemos a uma possível coalizão com o PSOE, onde traçarão a “linha vermelha” e quais serão os mínimos propostos e até que ponto o PSOE será capaz de aceitar os termos.

Os eleitores do Podemos e do PSOE dificilmente perdoariam que suas diferenças permitissem um novo governo do PP, mas uma aliança entre os dois partidos é, sem dúvida, muito difícil.

Uma das possibilidades discutidas na Espanha é a de novas eleições caso o PP seja incapaz de formar um governo estável, mas a única certeza é de que se avizinha um parlamento dividido, com um governo – de qualquer lado – com dificuldades (ou impossibilidade) para chegar à maioria absoluta e talvez governando com pactos pontuais, lei a lei, projeto a projeto e com sócios difíceis de contentar. Neste cenário, uma coalizão encabeçada por PSOE e Podemos teria mais chances de prosperar, pois poderia conseguir os apoios do ERC, EH Bildu e Esquerda Unida, ao passo que o PP só conseguiria apoio do Ciudadanos, devido à posição absolutamente radical anticatalã e antibasca de ambos.

Será um trabalho hercúleo, mas bem vindo diante da possibilidade de saída do bipartidarismo e da possibilidade de um novo gás na política espanhola cada vez mais viciada e envolta em escândalos de corrupção e diante de discursos (e práticas) cada vez mais semelhantes.

Destaque: Agência Efe – Apoiadores do Podemos comemoram resultados do partido nas eleições da Espanha.

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