Clube da Luta, por Neimar Machado de Sousa*

O filme norte-americano Clube da Luta (1999), protagonizado por Brad Pitt, conta a história de um homem comum, narrado por Edward Norton, descontente com a vida segundo as regras do Tio Sam: o American Way of Life. A mudança de rumo ocorre após o envolvimento com um vendedor de sabonetes e uma mulher dissoluta, Marla Singer. O filme é uma metáfora entre o descompasso entre jovens e o sistema publicitário de valores. Na sua guinada de vida, vê-se envolvido com uma organização que planeja apagar os registros de todas as dívidas com cartões de crédito, explodindo os edifícios onde estão estes registros.

Outra linha analítica do filme é a metamorfose física vivida pelos membros do Clube da Luta, após abandonar as convenções, cosméticos e as refeições nas lanchonetes de fast food. Este filme me fez lembrar sobre a educação grega, conforme narrada pelo historiador italiano Mario Alighiero Manacorda. Segundo ele, os gregos desenvolveram uma Pedagogia de Aquiles, programa para formação integral do guerreiro, chamado de Paidéia, origem do termo pedagogia.

De acordo com Manacorda, a Pedagogia do Guerreiro, voltada para a formação da aristocracia, incluía em seu currículo o pensar ou o falar, formação para o exercício da política, e o fazer, relacionado à habilidade para o manejo das armas. Por esta razão, as atividades físicas eram tão valorizadas no mundo antigo.

Com o perdão do Peter Burke, que nos alertou para o imperdoável pecado do anacronismo, remeto-me a outra sociedade tradicional que se avizinha de nós, o povo Guarani. Para nossa surpresa, as aulas para os meninos indígenas das etnias Guarani e Kaiowá, em escolas indígenas da região de Dourados-MS e Caarapó-MS como, por exemplo, Pa’i Chiquito Pedro, Loyde Bonfim e Ara Porã, são marcadas por uma coreografia que, à primeira vista, parece uma dança.

Quem me corrigiu sobre a natureza da Pedagogia do Guerreiro Guarani, chamado de Sambo, na língua guarani, foi uma jovem professora, Lisandrea Santos (25), guarani da Aldeia Pirajuí, no município de Paranhos-MS. Segundo ela, esta dança-luta tem a finalidade de preparar o corpo e aprimorar os sentidos desenvolvendo a concentração dos meninos.

O mestre tradicional Jorge Gomes, da Aldeia Pirakuá, município de Bela Vista-MS, ao discorrer sobre o Sambo, fala do sistema educacional próprio do Povo Guarani e Kaiowá. Este sistema próprio de educação não separa as habilidades intelectuais, corporais e espirituais. O canto é falar, reza e dançar. A reza educa a voz para a oratória. O conteúdo das rezas lembra as origens e a identidade indígena. A lembrança dos longos cantos educa a memória e fixa o calendário anual, segundo a resposta da natureza, de acordo com as estações do ano. A dança prepara o corpo e os sentidos para andar na mata. A leveza do corpo depende da leveza da alimentação que deve ser benzida antes de ingerida e compartilhada.

Ainda de acordo com o mestre tradicional kaiowá, Jorge Gomes, em entrevista concedida ao pesquisador João Machado, em 24/10/2014, a educação indígena tradicional preparava jovens que aprendiam a “plantar, dançar, trabalhar, caçar, pescar e respeitavam mutuamente. Hoje, isto acabou, como dizem os brancos, se modernizaram, e é diferente a vida.”

A explicação do rezador, nhanderu, chama a atenção para a fragmentação de nossa pedagogia escolar comeniana.

Segundo o nhanderu Jorge,

antigamente tinha a casa grande, ali existia quem ensinava o sambo. Hoje ninguém sabe mais o que é sambu. Antes tinha quem ensinava o sambu para os jovens, como diz os brancos, academia. Como academia dos brancos como judô, e outros tipos de ensinamentos que os jovens precisam. Com diz quem me ensinou o sambu tem 32 pontos. Mas ele me disse que se soubermos 10 ou 12 (omarchama) já é o suficiente para nos defendermos. Os nossos inimigos não conseguirão nos matar com arma, mas, a não ser feitiço, somente o feitiço poderá matar-nos.

Analisando o sentido do termo feitiço e traduzindo para nossa linguagem cartesiana, podemos dizer que os tribunais e os papéis, kuatiá, estão de fato enfeitiçando a educação tradicional deste povo ao separar o tekoha, território, do teko, cultura, e do nhe’ê, palavra, ou seja, dissociando a educação escolar da territorialidade negada em função da dinâmica capitalista que está possuindo a terra e água.

Entre as passos-golpe do sambo, lembrados pelo mestre tradicional, ele menciona o pirapere, jeito do peixe de negar e pular, piri mãnhã, negar como o curiango, o jeito do urubu, sempre inspirados nos movimentos dos animais. Ao final de sua fala pergunta: “quem vai mostrar estes passos para os nossos jovens?”

Parece que a foto acima é uma resposta animadora ao velho cacique, pois aquelas crianças foram flagradas pelos seus professores praticando sambo numa escola que, a despeito da colonialidade que pesa sobre o currículo, continuando vivificando as antigas práticas. Para nossa surpresa, o cacique estava com a razão, pois “o sambo é uma defesa” que o índio bem-educado carrega consigo. Trata-se de um “conhecimento que ninguém tira de você, você pode se banhar ou tomar chuva, mas, não vai acabar.”

A foto foi feita durante a exposição Sabor da Terra, na Aldeia Te’ýikue, Caarapó-MS, durante uma apresentação de sambo pelos meninos. Esta imagem nos lembra que a tradição nas sociedades tradicionais não é culto do passado, mas exercício permanente da esperança. Avisa-nos, também, que não se pode considerar anacrônico o que continua presente, mesmo que sob a invisibilidade do nosso olhar moderno-colonizador.

* Neimar Machado de Sousa, Karai Guaiguingue, é doutor em educação pela UFSCar e professor de geo-história colonial na Faculdade Intercultural Indígena – FAIND/UFGD, em Dourados – MS, onde coordena o Serviço de Documentação sobre os Povos Indígenas. E-mail: neimarsousa@ufgd.edu.br.

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