Cândido Grzybowski* – Ibase
Lembrar e, mais até, descobrir a verdade são necessidades da vida humana. Afinal, somos sujeitos de história, queiramos ou não, é nossa sina como humanos. Trata-se de agir, e no agir significar, seja pelo objetivo que buscamos, seja pelas convicções que nos movem ao agir. Conscientemente, nada escapa ao crivo ético que carregamos dentro de nós, ao menos quando sabemos que somos responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Ou, ainda pior, pelo que aceitamos fazer o que outros nos impõem de algum modo.
Nas lembranças e buscas sobre os 50 anos da ditadura militar, que nos foi imposta em 31 de março de 1964, sinto muito conforto com várias muitas revelações e significados publicados sobre tal momento e suas consequências. As análises me dão o contexto de um momento que, ao menos nos primeiros anos, me fugia ao alcance. Eu era um jovem de 19 anos, recluso num seminário capuchino, muito influenciado pelos nascentes movimentos libertários no seio da Igreja do Vaticano II. Não tinha acesso a jornais, a novata televisão nem pensar, só havia o rádio, na maioria das vezes captado por aparelhos improvisados, feitos de pedra galena, buscando a emissora mais próxima. A necessidade faz a gente ficar inventivo. Eu estava no seminário de Garibaldi, pequena cidade da serra gaúcha, predominantemente de colonos italianos produtores de uva e vinho. Eu era o único descendente de colonos de origem polonesa, em meio àquela “italianada”.
Por sinal, as emissoras de rádio eram mais pró-golpe do que pela democracia. Minha participação externa, nos embates que aconteciam na rua, com todas as suas contradições, era quase nula por causa das normas de uma instituição corporativa, semelhante às instituições militares, como é muitas vezes a Igreja. Porém, os sonhos de revolução daquela geração jovem furavam todas as barreiras e eram o caldo de debates, muitas vezes escondidos, entre seminaristas e alguns poucos dos padres professores. Continue lendo ““O medo é a maior lembrança desse período”, por Cândido Grzybowski”




