
“A Copa é simbólica porque, vendida como algo em que ‘todo mundo ganha’, na verdade é um processo em que alguns perderam tudo, para que uns poucos ganhassem muito, de forma que outros mais pudessem ganhar algo”, frisa o filósofo
IHU On-Line – Na semana em que se inicia a Copa do Mundo no Brasil, depois de tantas manifestações em torno dos protestos “Não vai ter copa”, “poucos realmente chegaram a crer que seria possível impedir a realização do torneio”, avalia Rodrigo Nunes em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail. Com tanto dinheiro empenhado no mundial, acentua, era difícil que o evento “não fosse em frente, nem que se tivesse — como estamos vendo — que botar as Forças Armadas na rua”.
Entretanto, o fato de a Copa ter sido marcada por inúmeros protestos sinaliza que parte da população estava dizendo: “não contem conosco para sermos figurantes felizes numa festa que sabemos não ser nossa. As pessoas recusaram o papel que lhes fora dado naquela narrativa”, diz o pesquisador. Para ele, o movimento “Não vai ter Copa” “era performativo: o simples fato de ser dito por milhares de pessoas já o tornava real. Por quê? Porque este tipo de evento é construído em cima da ideia de uma unidade indivisa: a Copa é boa para o país, é uma grande oportunidade para o Brasil, será uma grande festa para todos… Mas, claro, a verdade não é bem assim. A Copa é um grande negócio para um grupo muito restrito: a FIFA — que é literalmente impedida por lei de ter prejuízo, segundo a legislação que ela impõe aos países-sede —, os patrocinadores, as construtoras, etc”.
E acrescenta: “Para as 250 mil pessoas que foram ou seguem ameaçadas de serem expulsas de suas casas, para os familiares e amigos dos trabalhadores mortos, para os trabalhadores vivos que enfrentam condições laborais perversas, para os moradores ou vendedores de rua atingidos pela higienização das cidades, ela foi catastrófica”. Continue lendo “Como o mal-estar se exprimirá depois da Copa? Entrevista especial com Rodrigo Nunes”








