Por Débora Diniz, em Justificando
Uma tragédia mata pessoas — foi assim em Paris e em Bento Rodrigues. A desgraça chega sem pedir licença, pode ser hora de festa ou de comida na casa. Em Paris, as pessoas morreram ao som de música ou com gosto de café; em Bento Rodrigues, Keila Fialho preparava o jantar. Dela, ouvi história da tragédia de lama e imaginei a longa madrugada em que não sabia se o barulho das pedras e árvores indicavam se o rio descia ou subia rumo ao esconderijo no alto de um morro. Fiz força para imaginar a mulher que narrava a tristeza da perdição. Queria deixá-la para sempre na lembrança — na minha e na sua —, pois o que escutei dela é o resumo do que faz a tragédia na intimidade, “a coisa mais valiosa era a foto de minha mãe”. A foto foi perdida, a mãe também, pois Keila foi menina órfã aos nove meses. A mãe morreu de Doença de Chagas aos 23 anos, um mal típico da pobreza, do mundo rural e esquecido do Brasil. Peço que escutem a voz de Keila antes de seguir o que escrevo. Continue lendo “Paris, Bento Rodrigues e a tragédia”








