
*para Combate Racismo Ambiental
Tenho ouvido teus sussurros nessas madrugadas do tempo, que teima em amanhecer. São tantas bocas que passam a noite comigo, me beijam no leito e, talvez por isso, me chamem de ‘casa dos deuses’, nesse amor (quase) infinito.
Quero abrir-te meu coração por completo, sem nenhum segredo.
Pressentimentos horríveis me invadem o peito há mais de 30 anos. O choro persistente de Kararaô me impõe longas noites de insônia, rolando na cama, entre as ilhas.
Quantas flechas se quebraram e quantas malhadeiras se romperam.
Quanta ofensa! Desde essa época, muitos me chamam de idiota, de atrasado, contra o progresso. Mas tu bem sabes: aquilo que parecia apenas pressentimento tornou-se realidade. As vozes de outrora ganham ar de profecia.
Na Volta Grande, o muro de concreto sobe na velocidade do imenso canal, que rouba a água – que sou eu – reduzida à força mecânica de 18 turbinas. Continue lendo “Carta de amor, por Claret Fernandes*”






