Em Volta Redonda, ainda se combate a ditadura

Uma audiência vai decidir se a ponte Emílio Médici passará a se chamar dom Waldyr Novaes
Uma audiência vai decidir se a ponte Emílio Médici passará a se chamar dom Waldyr Novaes

Os habitantes do município fluminense têm a chance de homenagear um herói e retirar nome de ditador de obra pública

por Paulo Cezar Soares — CartaCapital

Se depender do Ministério Público Federal (MPF) de Volta Redonda, cidade no interior fluminense que sedia a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), mais um espaço público, dos milhares espalhados pelo Brasil, deixará de carregar o nome de um ditador. O MPF encaminhou em outubro à prefeitura e à Câmara de Vereadores o pedido de mudança na denominação de uma das principais pontes do município, batizada em 1973 de Emílio Garrastazu Médici, identificado até a medula com as torturas e a repressão política dos anos de chumbo. O procurador Júlio José Araújo Jr. sugere que um novo nome seja dado em 90 dias, por meio de discussão pública, com ampla participação da sociedade civil e baseada em normas constitucionais e legais.

Ainda em novembro, uma audiência pública será convocada para ouvir os moradores, afirma o presidente da Câmara de Vereadores, Washington Tadeu Granato Costa, do PTB. “Na audiência pública o tema vai ser debatido com integrantes da Comissão da Verdade e a população. Será feito um projeto de lei que, após ser votado em dois turnos, decidirá ou não pela troca.” Costa não disse se concorda com a alteração do nome da ponte. “Preciso ser imparcial.” Continue lendo “Em Volta Redonda, ainda se combate a ditadura”

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A metade do tamanho que se tem, por Nina Alencar Zur

Nina Alencar Zur é estudante de direito na UERJ e, em estágio na Defensoria Pública do Rio de Janeiro, tomou contato com os sentenciados recolhidos no Presídio Muniz Sodré. Desta experiência, banhada de humanidade, vem o texto abaixo (publicado originalmente no Diários de Mochila), contundente e ao mesmo tempo poético. “A maioria ainda está lá diminuindo de tamanho e fugindo do tempo”, escreve. Se a literatura é uma forma de condensar a vida, o texto de Nina nos mostra o que é possível ver, quando tratamos o direito de uma forma menos formal e burocrática. (Marcelo Semer)

prisão - mãos grade

Nina Alencar Zur, em Diários de Mochila

É só ao meio dia que David volta das distâncias e enxerga em seu corpo alguma coisa além de um pedaço de carne podre. Uma pequena porção de liberdade entra pelos seus poros, alagando-o em uma espécie primitiva de vida. Vida sem alegria, apenas a noção de que se está. O sol cobre o pátio sempre cinza do presídio e aquece até o buraco mais fundo da sua alma. Ela já mofa, é úmida. A cela fica um inferno em dias quentes. Cadeia é brincadeira desgraçada, jogo em que só se perde. Caminha até encontrar um canto vazio, sem ninguém pra perturbar com assunto de anteontem. Lá as conversas são sempre atrasadas, inúteis, como se vivessem todos no tempo dos bichos. Só se pasta e caga. Para ao lado de três latas de lixo enormes. Respira fundo aquele cheiro de merda e se recolhe para dentro do próprio corpo. Fica na mesma posição por alguns minutos, sentindo o bater do peito. O único movimento que percebe fora é o zumbido constante das moscas que, como ele, levam a vida mergulhadas na sujeira.

Escapa da agonia como pode, mas ela está sempre rondando a sua mente, tentando dele se apropriar. David está encurralado pelo sofrimento, retorcido pelas cordas do desespero, que permitem pouquíssimos movimentos. Divide a cela com mais dezoito homens, cada um com seus vinte e poucos anos nas costas. Todos ali pela força do tráfico, que só derruba quem nasce com a doença da pobreza. Quando chegou, aprendeu que a pobreza é uma doença. Ela consome um pouco todo dia, até que deixa imprestável. Castra os desejos, impõe barreiras e, por fim, trancafia. É a única explicação para eles serem esquecidos naquele depósito. Pobreza contagia e tem que ser isolada, sem piedade. Tomou ódio crescido dos seus cúmplices naquela penitência, sem chances de melhorar, cada dia mais fraco, sugado. Também aprendeu que onde tudo é ausência, tudo se negocia. Até mesmo o espaço para ganhar alguma hora de sono mal dormida, pisoteado pelos que ficam de pé, suando, esperando a sua vez de deitar. Cada passo e respiração, cada punheta e mijo são compartilhados. Na cadeia, a solidão é mais profunda. Ela dá no espírito. Continue lendo “A metade do tamanho que se tem, por Nina Alencar Zur”

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Cortem a língua deles, por José Ribamar Bessa Freire

guarani diploma lingua iphan

Em Taqui Pra Ti

A cada quinze dias acontece uma morte. Dizem que cortam a língua da vítima com requintes de crueldade. O cadáver desaparece misteriosamente sem deixar vestígio. Daqui até o natal haverá mais dois assassinatos em algum lugar do mundo, segundo previsão do investigador irlandês David Crystal, que busca pistas para explicar tantos crimes. Nenhum organismo policial, nacional ou estrangeiro, identificou até hoje os assassinos. Um seminário realizado em Foz do Iguaçu (PR), nesta semana, reuniu autoridades e especialistas da América Latina para discutir, entre outras questões, como evitar essas mortes consideradas crime contra a humanidade.

Parece que os assassinos se inspiram em Genghis Khan que no séc. XIII, de forma indulgente, poupava a vida dos prisioneiros de guerra a quem deixava retornar em liberdade às suas casas. No entanto, para impedir que batessem com a língua nos dentes e passassem informações ao inimigo, cortava suas línguas. Daí a origem do provérbio mongol:

– Quem tem língua cortada não fala. Continue lendo “Cortem a língua deles, por José Ribamar Bessa Freire”

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Uma Bacia recheada de dúvidas, por Mayron Régis*

Adital

A Bacia Araguaia-Tocantins, desde o ano de 1996, vem seguindo o seu curso em meio a uma série de dúvidas, em relação ao seu futuro, por conta da implantação de uma série de hidrelétricas, por conta da idéia de construir uma hidrovia, por conta dos vários projetos de fruticultura e de soja e, também, por conta do projeto de transposição do Rio Sono.

O jornalista Glenn Switkes, representante da Rede Internacional de Rios, em seu texto “Antes do Dilúvio”, presente no livro “Escritos sobre a Água”, afirma que mais de 100.000 pessoas serão despejadas, enquanto que 12.500 quilômetros quadrados serão inundados, produzindo uma série de lagos ao longo de toda a Bacia Araguaia-Tocantins, caso sejam construídas as 50 hidrelétricas previstas para a região. “Um massacre biológico, uma diáspora social”, nos mostra Glenn ao longo de todo o texto. Contudo, mesmo com uma série de denúncias e mobilizações, parece que o que é dito e escrito sai por um ouvido e entra pelo outro.

No início desse processo de destruição, em 1996, o presidente do Tribunal Regional Federal concedeu uma liminar permitindo que a hidrelétrica de Serra da Mesa fechasse as comportas para criar o maior lago, em termos de volume de água (54,4 milhões de metros cúbicos) na América Latina (área 1.784 km2). O argumento que o juiz utilizou, e que veremos mais tarde, ainda é muito utilizado pelo poder judiciário, é que o crescimento econômico do Brasil se inviabilizaria por falta de energia.

No texto “Do Tocantins seco a Marte”, o jornalista Washington Novaes, revela que, com esse tipo de argumento, o juiz passou por cima da Constituição federal e não observou várias questões ambientais, questões “…que as exigências da licença ambiental, com quase toda a certeza, não conseguirão remediar.” As conseqüências desse desatino foram o massacre de animais que não puderam ser salvos pelo pessoal contratado para salvá-los e ter tornado o rio Tocantins seco durante um ano de nossas vidas. Continue lendo “Uma Bacia recheada de dúvidas, por Mayron Régis*”

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Decisão sobre terra indígena no MS ameaça demarcações pelo país

IHU – Unisinos

Arrastando-se desde 1989, a disputa pela terra indígena Guyraroká, no sul do Mato Grosso do Sul, opõe não só as 80 famílias de kaiowás acampadas no local aos 26 fazendeiros que controlam a área.

Atualmente no STF (Supremo Tribunal Federal), o caso tem potencial para influenciar centenas de processos demarcatórios pelo país caso haja a ratificação de um marco temporal limitando a criação de áreas indígenas às que estavam ocupadas por índios em 1988, ano da Constituição.

Em Caarapó, a demanda indígena é personificada pelo líder kaiowá Tito Vilhalva, 94. Há 14 anos, ele e a família trocaram a aldeia Tey’ikue, também em Caarapó, por um barraco de lona à margem de uma estrada rural que atravessa plantações de soja, canaviais e pastagens. Foi ali, conta, que ele nasceu antes de sua aldeia ter sido coagida a deixar a região.

A reportagem é de Fabiano Maisonnave, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 23-11-2014.

“Os índios viviam tranquilos aqui no Guyraroká, era tudo mato”, diz Vilhalva, em conversa no acampamento cercado por pastagens. “Em 1931, 1932, tinha a guerra do Getúlio [Vargas] e um general mandou recado que ia matar todos os índios. E nós acreditamos, porque a guerra não perdoa ninguém, e fomos a pé para Tey’ikue.”

Localizado a cerca de 30 km do acampamento, Tey’ikue tem cerca de 3.500 hectares e abriga cerca de 6.000 guaranis-kaiowás. Em comparação, o Parque do Xingu (MT) possui 2,6 milhões de hectares para 4.800 índios.

Esse processo de confinamento, assim chamado por historiadores e antropólogos, concentrou os guaranis-kaiowás em pequenas reservas indígenas entre o início do século 20 e meados dos anos 1950 – enquanto as demais terras, dentre as mais férteis do país, foram vendidas a colonos vindos do Sul. Continue lendo “Decisão sobre terra indígena no MS ameaça demarcações pelo país”

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Secult lança livro sobre Bembé do Mercado: amanhã, 24/11, em Salvador

bembé do mercado

A obra é a sétima edição da coleção ‘Cadernos do IPAC’, que o Instituto vem publicando desde 2009

Redação iBahia

A Secult (Secretaria de Cultura do Estado da Bahia) lança nesta segunda (amanhã, 24), às 17h, na sala Katia Mattoso, na Biblioteca Central dos Barris, o livro ‘Bembé do Mercado’. O acesso para o lançamento é franco. O evento contará com a presença de Etelvina Rebouças, Diretora de Preservação do Patrimônio Cultural do IPAC e Roberto Pellegrino Filho, gerente de Patrimônio Imaterial do IPAC.

O livro ‘Bembé do Mercado’ que será lançado nesta segunda, é o sétimo volume da coleção ‘Cadernos do IPAC’, que o Instituto vem publicando desde 2009. O conteúdo da obra trata da manifestação religiosa Bembé do Mercado, Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012. “O Bembé é de extrema importância e significado, pois é estratégico para as populações afrodescendentes, porque ali as pessoas foram conquistando seu espaço e o Bembé é a consolidação desta conquista de espaço”, destaca Roberto Pellegrino.

O Bembé é uma manifestação religiosa realizada todos os anos desde 1889 pelos adeptos do candomblé, comunidade de pescadores e comerciantes de Santo Amaro da Purificação. O objetivo é comemorar a abolição da escravatura agradecendo aos orixás Iemanjá e Oxum.

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O racismo inverso existe e precisa ser combatido

racismo inverso - meninos branco e negros

Por Felipe Cardoso, em Chuva Ácida

Mais uma vez falando sobre racismo, mas dessa vez é um racismo que vem acontecendo com muita frequência, inclusive sou alertado sobre esse perigoso fato quase que diariamente por amigos que conhecem a minha militância. Sim meus caros, falarei sobre o RACISMO INVERSO, essa discriminação dos negros contra os brancos, esse racismo perverso que sempre existiu e que vem crescendo ultimamente, não só no nosso país, mas em todo o mundo.

Para começo de conversa, devemos esclarecer: preconceito é aquela ideia de algo ou alguém que temos (em nossa mente e em nossos corações) sem ao menos conhecer o algo ou o alguém. Discriminação é o ato de expor, colocar para fora, divulgar todo essa nossa ideia (pré-conceito), com doses absurdas de ódio e ignorância, que nos fazem elaborar discursos com fundamentos rasos, mas cheio de ofensas a algo ou a alguém. Já o racismo, bom, o racismo é algo que precisamos recorrer à história para podermos explicar, mas devo informar que, segundo os meus amigos, só existe o racismo de negros contra brancos.

Pois é, vamos voltar um pouco no tempo e ver como tudo isso começou para, assim, conseguirmos analisar com calma as consequências desse passado trágico que insiste em nos prejudicar atualmente. Espero que não se assustem com essa história de opressão vivida pelo povo caucasiano: Continue lendo “O racismo inverso existe e precisa ser combatido”

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Nossa água entra pelo cano. E o minério (e nós) vamos juntos

Foto: Mariela Guimarães / O Tempo
Foto: Mariela Guimarães / O Tempo

Por José de Souza Castro, em O Tempo

No dia 20 deste mês, o jornal “O Tempo” publicou reportagem de Ana Paula Pedrosa informando que a prefeitura de Viçosa, na Zona da Mata mineira, revogou todos os atos administrativos que autorizavam ou davam parecer favorável à passagem do mineroduto da Ferrous pelo município. “No decreto, o prefeito Ângelo Chequer alega que o empreendimento causará ‘inúmeras interferências’ ao meio ambiente, com destaque para o prejuízo aos mananciais”, diz o texto.

Vejo que, aos poucos, vão-se descobrindo os malefícios de um meio de transporte de minério de ferro — o mineroduto — que, se deixado por conta exclusiva do mercado, sem atenção às questões ambientais, dominará esse setor no Brasil. Pois, indiscutivelmente, é o meio mais econômico de se transportar minério. Por enquanto, responde por apenas 5% do setor no país. Mas, em Minas, avança impetuosamente.

É aqui que se constrói o maior mineroduto do mundo. Já escrevi sobre as artimanhas que o tornaram possível, envolvendo um dos mais notáveis empresários brasileiros, Eike Batista. O maior mineroduto do mundo liga Conceição do Mato Dentro ao Porto de Açu, no litoral fluminense, e hoje pertence à Anglo American, que comprou o negócio de Eike e vem procurando um sócio, no momento em que começa a transportar o minério, em plena crise de água em Minas e no país. Continue lendo “Nossa água entra pelo cano. E o minério (e nós) vamos juntos”

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Nação sufocada: apenas 0,4 por cento da população do país, indígenas respondem por 1 por cento do total de suicídios

Confira aqui um mapa interativo sobre os suicídios indígenas no Brasil (1996-2012)

Dados sobre suicídio no país escondem realidade ignorada: indígenas se matam em taxas até 20 vezes superiores às da população geral.

Por Sofia Moutinho, em Ciência Hoje

L. G., 21 anos, encontrado morto, enforcado com o cabo de energia de um rádio. A. L., 13 anos, descoberto pelos pais, pendurado pelo pescoço em uma árvore na beira da estrada. M. S., 19 anos, usou um fio de náilon para se asfixiar. Histórias parecidas que, além do final trágico, têm em comum o fato de que as vítimas eram todos jovens indígenas brasileiros.

Das diversas mazelas sociais do país, o suicídio não é uma das que se destacam. Em comparação com outros países, as mortes autoprovocadas por aqui são pouco comuns: cerca de cinco pessoas em 100 mil terminam a vida desse modo – bem menos do que a taxa de 30 por 100 mil de países como Lituânia e Coreia do Sul. No entanto, entre indígenas, o suicídio é bem mais recorrente. Continue lendo “Nação sufocada: apenas 0,4 por cento da população do país, indígenas respondem por 1 por cento do total de suicídios”

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Professores fundamentalistas impedem ensino da história e cultura africana nas escolas, diz especialista

cultura_africana

Uma lei que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas estaria sendo descumprida devido à atuação de professores evangélicos, que estariam sendo um “entrave” no assunto. A afirmação é da professora Ana Célia da Silva, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

do GNotícias/Geledés

A lei 10.639, publicada em janeiro de 2003, prevê que os alunos aprendam sobre os ancestrais africanos e sua cultura e história. Numa entrevista ao portal EBC, Ana Célia diz que a religião e a falta de formação dos professores são os principais pontos que dificultam a colocação da lei em prática.

“O desafio maior hoje é a atuação das igrejas evangélicas através dos professores evangélicos que, em sua grande maioria, demonizam tudo em relação à história e cultura afro-brasileira. Porque a história e cultura afro-brasileira parte da religiosidade, da cultura, e eles acham que tudo é demônio”, queixou-se a professora. Continue lendo “Professores fundamentalistas impedem ensino da história e cultura africana nas escolas, diz especialista”

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