Resumo: A carta de Luiz Gama a Lúcio de Mendonça, datada de 25 de julho de 1880, traz a história de vida do único ex-escravo brasileiro que se destacaria como homem de letras e líder dos movimentos abolicionista e republicano. Neste trabalho, pretendemos mostrar como esta carta, em geral considerada de forma isolada, se inscreve numa rede intertextual que modifica e multiplica seus níveis de leitura. Sua originalidade reside tanto no valor do depoimento como nos seus fenômenos enunciativos. Evocamos também a história inédita de um documento que só vem a lume nos anos 1930, cercada de uma polêmica que amplia hoje as possibilidades interpretativas. Por fim, analisar as fronteiras entre os gêneros epistolar e autobiográfico permite-nos questionar em que medida se trata realmente de uma “Autobiografia”, tal como esta carta vem sendo apresentada há mais de sessenta anos.
“Nul ne peut écrire la vie d’un homme que lui-même”
Jean-Jacques Rousseau
No largo do Arouche, em São Paulo, ergue-se, praticamente invisível aos apressados transeuntes, o busto imponente do poeta, jornalista e advogado Luiz Gama (Bahia, 1830 – São Paulo, 1882). Trata-se de um dos raros intelectuais negros brasileiros do século XIX, o único autodidata e também o único a ter sofrido a escravidão, antes de integrar a República das Letras, universo reservado aos brancos. Nascido num Brasil havia pouco independente, era filho, segundo ele, de uma africana e de um pai de origem portuguesa que o venderia, ainda criança, como escravo. Foi nesta condição que chegou à capital paulista, onde viveu por quarenta e dois anos, notabilizando-se como um de seus mais ilustres “cidadãos”. Nesta cidade, Gama lançou a primeira edição de seu único livro – Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (1859) -, uma coletânea de poemas satíricos e líricos até bem pouco rara(2). Pela primeira vez, na literatura brasileira, um negro ousara denunciar os paradoxos políticos, éticos e morais da sociedade imperial. Após desfrutar do êxito proporcionado por uma obra que ainda hoje se destaca dentro da produção romântica, Gama se dedicaria a trabalhar em prol de seus sonhos – um “Brasil americano, sem reis e sem escravos”(3) – através do jornalismo, da tribuna e dos tribunais. Seu nome se prende igualmente à história da imprensa paulistana como fundador e/ou colaborador de periódicos como Diabo Coxo, Cabrião, O Polichinelo, Correio Paulistano, etc. Jamais freqüentou escolas, pois, como afirmara, “A inteligência repele os diplomas, como Deus repele a escravidão”(4). Luiz Gama converte-se no incansável e douto “advogado dos escravos”. O poeta então se eclipsa, cedendo lugar ao abolicionista e militante republicano. Continue lendo “Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça(i), por Lígia Fonseca Ferreira*”