“Esperança”, por Felipe Milanez, de Anapu, Pará

Local onde irmã Dorothy foi assassinada na vicinal 1, próximo ao lote 55, do PDFS Esperança, em 12 de fevereiro de 2006

A lua cheia se recolheu atrás das nuvens, e algumas gotas anunciam a chuva iminente. “Mas não vai chover agora”, comenta João Araújo. “Só mais tarde, de madrugada.” Ele fala como quem conhece as intempéries da Amazônia.

O telhado de lona que protege algumas redes deve dar conta. João preferiu apenas palha de palmeira, num cantinho onde armou sua rede. Costume de dormir na mata, dos tempos em que trabalhou nos garimpos do Pará.

A floresta é alta, como se estivéssemos cercados de prédios, como uma silhueta da avenida Paulista numa noite de blackout.

Araújo, um solitário lavrador com marcas de uma vida dura nos sulcos do rosto, aproveita a calma da noite, junto de assentados amigos em meio ao bloqueio que fazem da estrada, para contar o drama que passa e falar das ameaças de morte que tem recebido de seu vizinho. Uma surpresa na trajetória de quem largou garimpos em busca da paz bucólica do campo.

“Queria um cantinho meu, sabe como é?” Mas deparou-se com a violenta disputa por madeira nobre na Amazônia. “Meu vizinho me disse: seu João, quero comprar uns pau aí do teu lote. Eu disse: ora, eu não vendo. E ele: então a gente vai pegar assim mesmo.”

O aperto que Araújo tem passado por negar-se a vender madeira, quando chega só em sua casa, como a vez em que seu vizinho o surpreendeu com uma espingarda e disse que daquela noite ele não passava, não é um drama exclusivamente dele. Mas uma situação de tensão um tanto corriqueira, ao longo dos últimos meses, para os assentados do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança.

Foi no Esperança, na vicinal 1, próximo ao lote 55, que no dia 12 de fevereiro de 2005, a irmã Dorothy Mae Stang foi assassinada com seis tiros. Há exatos seis anos. Hoje, tensão, ameaças e abandono do Estado continuam. O pistoleiro Rayfran das Neves Sales, conhecido como Fogoió, está preso. Assim como o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, um dos mandantes. Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, também acusado de ser mandante, está solto.

No último sábado, 12 de fevereiro, uma caravana reunindo movimentos sociais da região andou pela Transamazônica, seguiu por algumas ruas de Anapu até o Centro São Rafael, onde ela está enterrada. Pediam justiça, e que a situação de conflito presente no Esperança recebesse a atenção que merece do Estado.

Naquela noite de protesto, mestre João, como é conhecido, contou um pouco da sua vida e das ameaças que tem recebido. Pessoa anônima, ele não é um líder de destaque entre os assentados, como Fábio Lourenço de Sousa, ou o Padre Amaro, que chegaram a receber ameaças públicas recentemente. Mesmo assim, mestre João corre o risco de ver sua vida terminar em razão de uns “paus” que estão no seu lote.

João Conceição Araújo nasceu em Nova Iorque, estado do Maranhão, em 1951, e veio para o Pará atrás de um sonho, de ver sua vida, hoje em risco, melhorar. Muitos joãos vindo do Maranhão perderam a vida no Pará nos últimos anos em razão de conflito por terra, por madeira, por ouro. Produtos do El Dorado amazônico, que por vezes lembra um faroeste.

Mestre João segue firme, e torço para que a ameaça não passe de uma bravata, que sua vida não seja tirada da mesma forma cruel e covarde como foi assassinada irmã Dorothy. Nos seis anos de seu assassinato, um depoimento de uma pessoa anônima que corre o risco de ser assassinada pelo mesmo motivo fútil. Abaixo, trechos da conversa que tivemos, um sujeito simpático que leva com bom humor alguns percalços da vida.

Mestre João, o senhor viveu em Nova Iorque até quando?
Sai de lá com seis meses nascidos. Meus pais vieram para Paraíso no Maranhão. Uma cidadezinha no campo. Fiquei até os 14 anos. Sempre eu vinha a Goiás, porque tinha as minhas irmãs que tinham mudado para Goiás. Dai trabalhava com eles, e voltava para casa dos meus pais. Com a idade de 16 anos meus pais morreram.

O senhor trocou Nova Iorque pelo Paraíso?
Ééé…

Seus pais morreram juntos?
Não, um depois o outro. Aí eu danei no mundo. Mudei pra Goiás, casei. Nos somos sete irmãos, cinco mulheres e dois homens. Sou o caçula.

Casou com quantos anos?
Com 31.

Foi trabalhar na terra?
É.

Quando veio pro Pará?
Em 1975.

Pra quê?
Pra trabalhar em garimpo.

Como ficou sabendo dos garimpos?
Peguei um ônibus em Marabá e danei aqui pra Itaituba, que surgiu uma colônia, a primeira colônia em Altamira. Quando passou na televisão Altamira parecia um tapete. E nego brincando com dinheiro e eu vi aquilo em Marabá, peguei, comprei a passagem direto pra Altamira. Cheguei em Altamira, disse pra um sinhô, to pensando em pegá um lote, e ele me disse que eu não podia, porque era muito novo. E era só baiano, que era pra mexer com cacau. Eu nesse tempo não sabia mexer com cacau. Disse que eu não podia porque eu era muito novo. Aí eu fiquei trabalhando cortando cana no 90 (quilometro 90 da Transamazônica). Tinha uma usina de açúcar, fiquei trabalhando lá.

Na Transamazônica mesmo?
É. Ai eu topei com um garimpeiro em Altamira, nesse tempo eu bebia muito. Bebia cachaça lá, e esse garimpeiro me disse: “vixe, rapaz tu nunca trabalhou em garimpo? Bora mais eu pra Itaituba! O troço lá é bom” Bom nada, eu disse, vou nada. “Bora, bora, eu pago todas as despesas”. Então bora, eu disse, danei mais ele pra Itaituba e de lá fomos pro garimpo. Lá eu peguei dinheiro mas tudo foi pro alto, e lá tinha ouro!

Tinha muito ouro lá?
Era ouro pra porra. Tinha muita gente lá no garimpo.

E era violento lá?
Era. Era violento. Era violento.

Ficou com medo?
Mas moço, como é que não fica? Não tinha costume.

Depois?
Trabalhei em fazenda.

Quando veio pra cá?
Eu vim em 2005.

Chegou a conhecer a Dorothy?
Quando ela morreu conheci. Tava morando num movimento sem terra aqui em Curionópolis. Ela foi visitar a gente uma vez.

Largou o garimpo por quê?
Larguei porque casei. Depois fiquei solteiro voltei pro garimpo novamente. Dai pensei, não, to errado. Nos tempos que o garimpo era bom de ouro, peguei e gastei mesmo. Naquele tempo era novo, não podia ver uma mulher bonita, né, que gastava. Ai eu digo, vou voltar pras fazendas. Por que nas fazendas eu trabalho. Toda a vida nas fazendas os fazendeiros gosta de eu. Eu não pegava trabalho na mão de gato, era do gerente ou do fazendeiro. Muito peão ficava em cativeiro, aquele negocio, é porque pegava na mão de gato. Eu pegava ou do fazendeiro ou do gerente.

O dinheiro veio, foi e tu nunca teve terra?
Eu trabalhava em fazenda só pra ganhar uns trocados, e ficava trabalhando com os fazendeiros. Nunca liguei assim pra comprar um pedaço de chão. Quando foi em 2005, eu vi passar no jornal que tinham matado essa velhinha aqui. Amigo, cê sabe que eu vou é pra lá? Tinham falado PDS. Eu tinha um folhetozinho que contava a história do PDS. Eu ainda tenho aqui. Eu tenho um livrinho, do Chico Mendes. Eu vou lá dentro, isso lá vai ser respeitado. É PDS. Ai me deram esse lote. Muito longe, é um dos últimos da vicinal. Mas de possuir, trabalhar dentro do que é meu.

Como é o seu lote?
Hoje eu to dentro da cidade já, porque tem estrada na porta. Quando eu entrei, varei foi de facão, sô. Eu entrei já por dentro do esquema, não quero desmatar. Meu causo é preservar a mata. Num pedacinho de chão dá pra trabalhar muito tempo. Aí eu vou desmatar, pra pegar esse solão muito quente, vai secar minha água. Tanto que você chega lá e a mata tá asssim de grande, rapaz.

E os madeireiros tão atrás desses paus?
Ficaram com raiva daquilo, foram lá e pegaram minhas madeiras. Mas o chão eles não carregam. Eu to com duas linhas de ipê, os bichos cresceram.

Mas os ipês nativos, eles pegaram?
Nos 80% acho que pegaram. Eu não andei mais lá dentro. Tomei foi raiva. Tiraram por conta.

Como foi?
Eles tiraram. Falaram pra eu vender. Eu não vendi. E eles tiraram por conta.

Foram no teu lote negociar contigo?
Chegaram no meu lote. O vizinho meu. Vizinho, mas já distante. Ele saltou quatro lote, porque eu divido o lote com o irmão dele. O irmão dele, com muito cheio de trapalhada, solteiro também, só vive trabalhando na rua. Com essa história do Incra que tem que morar dentro, ele pegou e foi tirar a madeira do irmão dele e passou pra dentro do meu.

Ele falou contigo?
Eu to la em casa, tranquilo, graças a deus, sem pensar em gente ruim. De tarde, chega um senhor, o Batista (um madeireiro), do bar, aqui do Anapu, morenão. Me chamou. Oba, como é que ta, ta bom? Ta bom. Vamos sentar, tomar café, e tudo. Eu não sabia que ele vinha praquilo. Disse: viemo aqui comprar madeira. Ué, tudo bem. Eu sempre gosto de um fuminho, acendi um cigarrinho. Disse: ah, mestre João, eu to encostando aqui, eu soube que na sua terra tem uns ipêzinhos até bom, queria saber se o senhor quer vender. Ai eu disse assim: vender? uai. Os que eu plantei tão muito novos. E os que eu não plantei eu não tenho ordem de vender, não me deram essa permissão. Aqui dos 20% eu não vou vender mesmo, eu acho bonito eles é em pé. Ai tem nos 80%, e o que eles me falam em reunião, é que eu não posso estourar uma vara lá dentro. E eu vou mexer porque, para perde o meu terreno? Ele falou: que conversa, o Incra não tira ninguém não, precisa ter medo não. Ué, não precisa ter medo? Meu cidadão, eu to morando na terra do governo. Isso aqui é um projeto. Eu pego e faço coisa errada, eles tem direito de me jogar fora. Eu não comprei, eu ganhei, dado por eles. Ai, esse Denilvado (o vizinho) disse, eu vou vender é todo, e daqui eu não saio não. Mas o meu, eu disse. Eu vigio essa terra todinha. Os órgãos que sabe o que eu mereço aqui dentro.

Ele disse: é o seguinte: a gente tá entrando, porque essa madeira tem que ser tirada daqui. E aí, seu João. Vamos entrar lá pelos fundos, vamos tirar essa madeira todinha. Fiquei sabendo que os ipês são bom, tem bastante, tem uns canteirozinhos. E ai a gente entra pelos fundos e tira. E o que o senhor vai fazer? O senhor vai ficar sem dinheiro e sem a madeira. O senhor é bobo, sô. Vamos fazer negócio.

Eu disse: negativo. Não vou vender um pau. Eu falei: se vocês entrar, eu vou denunciar vocês.

Ele disse: denunciar para quem, pro Ibama?

Justamente, eu disse.

E o que o Ibama vai fazer? Seu João, o Ibama chega ali em Anapu nóis joga 25 ou 30 mil reais na mão dele, ele volta e você é quem fica sem nada. Cê vai fazer o que?

Eu digo: tudo bem, vocês podem fazer isso com o Ibama. Mas tem outros órgãos que podem reconhecer o meu direito e me dar o meu direito. Eu não vou ficar quieto não. Se vocês tirarem um pau ai dentro, eu digo pra vocês, eu não fico quieto. Quando foi 6 horas da tarde eu escutei os pau cair lá dentro do lote. Corri lá: cidadão assentado e um cabra serrando os pau. Sim senhor, tão tirando os pau, né?

E nóis vai tirar mesmo, ele disse. E por onde passar, nois vai tirar, e vai ser por dentro do seu terreno mesmo.

Dei parte na associação, e a associação engavetou. Dei uma semana lá no Anapu, e não podia vir porque eu fiquei com medo. Eu nunca briguei, corri.

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

Enviada por Ruben Siqueira.

Comments (1)

  1. Muito boa a publicação. Estive 10 dias nesse PDS em estágio de vivência, faço Agronomia no Ifpa- campus Castanhal, foi a primeira vez que estive na Amazônia e me deparei com essa realidade de violência e criminalidade rural. Sem falar nos orgãos que são ‘cegos’ para estas causas. Foi muito dificil, senti muito medo mas é uma experiência que trago comigo e uma lição que aprendi com aquele povo que ama a floresta e ama a sua terra e arriscam suas vidas em defesa da mesma assim a irmã Dorothy que morreu por esta causa.

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