João Paulo*
Renilson e Jefinho morreram há uma semana. Foram assassinados em sua comunidade por policiais que buscavam propina do tráfico. Eram pessoas de bem e a execução covarde acendeu o rastilho de indignação que tomou conta do Aglomerado da Serra. Há hoje um consenso, que carrega concordância de muitos especialistas em segurança pública na cidade: a Rotam precisa ser dissolvida, em função de sua estrutura, história e composição. A ideia por trás desse propósito é que maus policiais mancham a corporação. A polícia de Minas já foi considerada a melhor do país. A melhor polícia do país mata inocentes por motivos torpes. Está tudo errado.
A situação em Belo Horizonte merece muita reflexão. Parece que estamos atravessando a linha imaginária perigosa que separava a cidade em dois polos quase incomunicáveis. A violência não é de hoje, o que a torna mais preocupante é sua percepção pela classe média. Metáfora estranha que ao mesmo tempo anestesia e diagnostica, o Aglomerado da Serra pertence à cidade, mas é tomado como apêndice, uma área de exclusão tolerada. Quando a violência contra as pessoas se concentrava no interior de seu perímetro real e imaginário, parecia ser coisa de pobre, acerto de contas, lei da selva. Quando as pessoas, tomadas de indignação, reagiram à polícia e protestaram fora dos limites definidos, a situação de medo se estabeleceu. E é nesse caldo que estamos metidos até o pescoço.
Há questões reais, como a corrupção, o achaque, o arreglo. Nessa prática estão metidos criminosos e policiais, com a população funcionando como escudo, uma espécie de refém que só tem a perder. Em certo sentido, a situação se parece com a dos guetos durante a 2ª Guerra Mundial: os judeus eram impedidos de quase tudo que significasse uma vida digna. No entanto, parecia a eles que, seguindo as determinações da polícia, estariam preservados. Havia uma espécie de pacto, alimentado pelo medo, que parecia apontar sempre o outro como a vítima preferencial. Em nossa realidade, esse álibi imaginário passa pela noção de “honestidade”. O trabalhador, desde que se mantenha fora da linha de tiro, pode ficar tranquilo. A violência é sempre dos outros. Continue lendo “Quando a vida não vale nada”