Greve dos garis demonstra que racismo e discriminação devem ser superados. Entrevista especial com Antonio Cechin e Roque Spies

Foto: Manchete Online
Foto: Manchete Online

“Há uma tentativa de mostrar para a sociedade que a discriminação não tem cabimento, especialmente no caso dos garis, dos catadores de lixo, que desenvolvem um trabalho fundamental”, diz o assessor de cooperativas Roque Spies

IHU On-Line – A greve dos garis do Rio de Janeiro, que teve como desfecho o aumento salarial de 37% e outros benefícios aos trabalhadores, suscitou discussões que estão entrelaçadas na história do Brasil.

As desigualdades sociais, o racismo, as más condições de trabalho foram alguns dos temas comentados por conta da greve que, sem contar com o apoio do sindicato, conseguiu um aumento salarial surpreendente. Para comentar esse fato, a IHU On-Line conversou com Antonio Cechin, por e-mail, que trabalha com catadores e recicladores de Porto Alegre, e Roque Spies, que assessora cooperativas de catadores na região do Vale do Rio dos Sinos.

Na avaliação de Cechin, “a grande lição deixada por esses vitoriosos garis, aplaudidos pelo povo depois do sensacional tento que lavraram e que deixou a eles mesmos perplexos, porque jamais imaginavam tanto, é que não há meio popular que não possa se organizar em busca de sua própria libertação. Isso porque o Deus da fé cristã é o Deus dos últimos, dos excluídos”. Continue lendo “Greve dos garis demonstra que racismo e discriminação devem ser superados. Entrevista especial com Antonio Cechin e Roque Spies”

Ler maisGreve dos garis demonstra que racismo e discriminação devem ser superados. Entrevista especial com Antonio Cechin e Roque Spies

“Há horas que a correlação de forças é contra você, mas você faz”. Entrevista com Vladimir Safatle

Para Vladimir Safatle, professor de filosofia da Universidade de São Paulo, a esquerda brasileira perde várias possibilidades de se diferenciar de seus adversários por ficar fazendo muitos cálculos sobre a conjuntura política. “Há horas que o governo tem de ir lá onde a sociedade não quer ir. Mas, para isso, é necessário ter muita clareza do porquê você está lá”, comenta ele, citando as experiências de Mujica, no Uruguai, e da França de Mitterand. Autor de A esquerda que não teme dizer seu nome, o professor do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo Vladimir Safatle tem sido um dos mais notáveis intelectuais a discutir as questões filosóficas e morais da esquerda mundial. Além de avaliar as manifestações de junho do ano passado, o filósofo discorre sobre o esgotamento do modelo de desenvolvimento dos governos Lula e Dilma e as perspectivas da esquerda brasileira

Antonio David e Artur Scavoni – Brasil de Fato

Em artigo recente, você afirma que as exigências populares de uma “outra política” expressas em junho “pararam na lata de lixo mais próxima”, e argumenta: “Depois de apresentar com uma mão um projeto de Assembleia Constituinte para a reforma política e retirá-lo com a outra, o governo prometera pressionar o Congresso Nacional para debater as propostas. O resultado foi cosmético, se quisermos ter um mínimo de generosidade”. Contudo, o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, tratando deste mesmo assunto, apresenta um ponto de vista diferente. Diz ele: “As ruas emitiram um sinal, e Dilma emitiu um outro sinal em resposta num sentido de ampliação da democracia como nunca havia acontecido. Os setores da direita imediatamente souberam ler o que estava em jogo, e os manifestantes não souberam”. Como você encara a resposta das ruas à proposta de Assembleia Constituinte?

Acho que tem um problema aí, porque é impossível ter resposta para um projeto que foi retirado 48 horas depois de ter sido apresentado. Eu de fato não compartilho dessa análise, porque o governo não deu sequer tempo para que a sociedade pudesse emitir uma resposta. O que aconteceu foi que, num momento de sanidade, ficou claro que nós estávamos numa espécie de crise de representatividade profunda, que exigia o que eu diria caminhar em direção ao grau zero da representação, ou seja, voltar a dar voz ao poder instituinte, para que as condições de organização do jogo político pudessem ser recompostas. Mas, quando se faz uma proposta dessas, tendo em vista que é uma proposta muito séria, da mais alta importância e gravidade, o mínimo que se espera é que se esteja preparado para todas as reações que virão. É óbvio que não viriam apenas reações entusiastas, mas também gritos de golpe e coisas dessa natureza. Ninguém que acompanha a política brasileira poderia imaginar o contrário. Então, isso me deixa muito preocupado. Continue lendo ““Há horas que a correlação de forças é contra você, mas você faz”. Entrevista com Vladimir Safatle”

Ler mais“Há horas que a correlação de forças é contra você, mas você faz”. Entrevista com Vladimir Safatle

Tamires: a menina que queria ser negra

Foto de Wilson Dias para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.
Foto de Wilson Dias para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Luana Tolentino – FeMMaterna

Para quem acredita em destino, o meu se mostrou cedo demais. Aos dez anos alfabetizei a pequena Bárbara, que na época tinha cinco. É bem verdade que tentei fugir, trapacear o que a vida havia reservado para mim. Até prestar o vestibular, jamais admiti que me tornaria professora. Por outro lado, nunca consegui pensar em qualquer outra profissão. O resultado não poderia ter sido outro: há cinco anos dou aulas de História para turmas do ensino fundamental e médio.

Acho que tenho mais habilidade com os maiores. Lidar com os conflitos típicos de alunos e alunas na faixa etária entre 11 e 13 anos, demanda muita energia. Em 2012, depois de ministrar aulas somente para estudantes do ensino médio, assumi algumas turmas da 6ª série, já no último bimestre. Durante esse período, levei para sala de aula um projeto sobre Gênero e Raça, fruto do meu desejo “pela criação de um mundo de conhecimentos recíprocos”, além de uma tentativa de implementar a lei 10.639, que desde 2003, tornou obrigatório o ensino das Histórias e Culturas africanas e afro-brasileiras em sala de aula.

Nesses dois meses, trabalhei principalmente a questão da construção da identidade racial dos garotos e garotas, a partir de suas vivências, de algumas representações da população negra na mídia, na literatura e na música. Embora o tempo para a realização das atividades tenha sido curto, posso dizer que o trabalho trouxe bons frutos. Continue lendo “Tamires: a menina que queria ser negra”

Ler maisTamires: a menina que queria ser negra

Manifestação reúne mil Sem Terra em Água Branca (AL)

MST ALPor Rafael Soriano
Da Página do MST

Na manhã desta terça-feira (11/03), cerca de mil manifestantes realizaram uma marcha na cidade de Água Branca, no Alto Sertão de Alagoas (distante cerca de 340 km de Maceió), em que reivindicaram terras para Reforma Agrária e o atendimento da população camponesa por políticas públicas. A mobilização gerou uma agenda de reuniões entre o poder público municipal e os Sem Terra.

Os milhares de agricultores organizados no MST percorreram as ruas do município serrano com faixas, bandeiras e palavras de ordem. Na frente da Prefeitura Municipal, no centro da cidade, realizaram um ato político com o intuito de pressionar o poder público municipal a apoiar a Reforma Agrária.

“Estamos realizando esta marcha para exigir que o poder público aqui deste município dê a devida assistência aos camponeses de Água Branca, sejam Sem Terra ou não”, afirmou José Roberto Silva, da Direção Nacional do Movimento. José Roberto explica que a realização da Reforma Agrária é uma responsabilidade do Estado brasileiro “e isso envolve também o nível municipal”. Continue lendo “Manifestação reúne mil Sem Terra em Água Branca (AL)”

Ler maisManifestação reúne mil Sem Terra em Água Branca (AL)

Guilherme Delgado: para onde vai a economia do agronegócio?

guarani-kaiowa-agronegocio2Por Guilherme Costa Delgado*
Para o Brasil de Fato

Analisar este setor de atividade da maneira convencional, qual seja pela medição e comparação dos fluxos de produção das cadeias agroindustriais que vendem insumos ou processam primariamente a produção oriunda da agropecuária é uma forte tentação do mundo empírico, que, contudo leva a problemas de interpretação.

Recentemente o IBGE divulgou um comparativo de crescimento da “Indústria” e da “Agroindústria” entre 2002 e 2013 (link), indicando uma estagnação da ‘agroindústria’ nos últimos seis anos, principalmente em 2013, que apresenta queda de 0,2%.

Por outro lado, é importante destacar dois fatos e omissões que estão por trás dessa informação do IBGE:1- a maior parte dos insumos agrícolas -fertilizantes, agrotóxicos e combustíveis líquidos do petróleo são no presente  demanda da agropecuária por importações e não para a indústria interna; 2) há  certo declínio de preços externos de ‘commodities’ no período sob análise; 3) a dinâmica da economia do agronegócio estará incompleta se nos restringirmos aos fluxos de produção medidos pelas estatística oficiais do IBGE (Agroindustria) ou do Ministério da Agricultura (Agronegócio), este último incluindo toda a produção primária. Continue lendo “Guilherme Delgado: para onde vai a economia do agronegócio?”

Ler maisGuilherme Delgado: para onde vai a economia do agronegócio?

Chomsky: Segurança, conceito controverso

140311-EUA-e1394533924710

Como os EUA arriscam proteção de seus cidadãos, e se isolam internacionalmente, para proteger grandes corporações e poder do Estado

Por Noam Chomsky, no Alternet | Tradução: Antonio Martins – Outras Palavras


Primeiro de dois artigos construídos a partir de palestra de Chomsky (em 28/2) para a Nuclear Age Peace Foundation. 

Um princípio orientador da teoria das relações internacionais diz que a maior prioridade do Estado é garantir a segurança. Como estrategista da Guerra Fria, George F. Kennan formulou que os governos são criados “para garantir a ordem e a justiça internas e para assegurar a defesa comum.” A proposição parece plausível, quase evidente, até que um olhar mais atento pergunte: Segurança para quem? Para a população em geral? Para o próprio poder do Estado? Para os setores dominantes na sociedade? Continue lendo “Chomsky: Segurança, conceito controverso”

Ler maisChomsky: Segurança, conceito controverso

Grupo propõe medidas de proteção a profissionais de comunicação

Cinegrafista é atingido por spray de pimenta (Rodrigo Paiva/Estadão)
Cinegrafista é atingido por spray de pimenta (Rodrigo Paiva/Estadão)

Marcelo Brandão – Repórter da Agência Brasil

O Grupo de Trabalho Direitos Humanos dos Profissionais de Comunicação no Brasil, vinculado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, propôs ontem (11) a criação de um Observatório da Violência contra Comunicadores. Se aprovado, o observatório será fruto de cooperação entre a Organização das Nações Unidas (ONU), o Ministério da Justiça e a SDH, com vistas a garantir a defesa de profissionais de comunicação, que sofram violências em virtude da natureza do trabalho.

A proposta do Grupo de Trabalho – criado em outubro de 2012, e conhecido como GT Comunicadores – é que o observatório tenha uma unidade de recebimento de denúncias, além de mecanismos de proteção aos comunicadores e acompanhamento das investigações, para assegurar punição aos criminosos. A sugestão é motivada pelo levantamento feito pelo GT Comunicadores sobre os casos de violência contra jornalistas e demais comunicadores.

De 2006 a fevereiro de 2014 foram registrados 321 casos de violência. Entre eles estão agressões, ameaças de morte, perseguições e homicídios. No período analisado, foram 18 mortes, 168 agressões e 29 ameaças de morte, dentre outras ocorrências. Continue lendo “Grupo propõe medidas de proteção a profissionais de comunicação”

Ler maisGrupo propõe medidas de proteção a profissionais de comunicação

Quase 40% da água limpa se perde antes de chegar ao consumidor no Brasil

0,,16143473_303,00

Desperdício acontece entre saída da estação de tratamento e chegada às residências. Em algumas regiões do Norte, perda chega a até 70%. Entre as principais razões, vazamentos na rede e transbordamento de reservatórios

Clarissa Neher e Nádia Pontes – Deutsche Welle

No centro mais populoso do Brasil, São Paulo, uma força-tarefa tenta manter a normalidade no fornecimento de água. Em março, o Sistema Cantareira, que abastece metade da população da região metropolitana da capital, registrou o menor índice nos reservatórios desde 1974, quando o complexo começou a funcionar. Governos e operadoras apelam ao consumidor e oferecem bônus para quem economizar em casa. Continue lendo “Quase 40% da água limpa se perde antes de chegar ao consumidor no Brasil”

Ler maisQuase 40% da água limpa se perde antes de chegar ao consumidor no Brasil

Viúvas da ditadura tentam reeditar Marcha da Família

CB5EFF2E6D6DBED76EDC14ECD2842B402FF4B1049E8AB92324B0D33E177C2CA8
Créditos da foto: Arquivo

Najla Passos – Carta Maior

Brasília – Às véspera dos 50 anos do golpe civil-militar, saudosistas do regime que matou, torturou e desapareceu com milhares de brasileiros articulam uma nova versão da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, a mobilização de extrema-direita que, em 1964, deu a justificativa que faltava para que os militares tomassem o poder e mergulhassem o país em uma ditadura que durou 20 anos.

Há eventos marcados para o próximo dia 22 em municípios de pelo menos 23 unidades da federação. A propaganda e busca por adesão é feita por meio da distribuição de panfletos e divulgação via redes sociais, mas a adesão, até o momento, é baixa. No maior dos eventos, o de São Paulo, apenas 862 pessoas confirmaram participação, via Facebook, até a tarde desta terça (11). Continue lendo “Viúvas da ditadura tentam reeditar Marcha da Família”

Ler maisViúvas da ditadura tentam reeditar Marcha da Família

A ditadura vista da escola: uma memória

miniNão havia como escapar do clima de repressão: oito anos de doutrinação tosca e forçada na escola deixaram em mim uma aversão ao hino nacional

por Antonio Luiz M. C. Costa – Carta Capital

Como a ditadura afetou infâncias e juventudes? No meu caso, menino de classe média criado no bairro do Planalto Paulista, em São Paulo, de forma bem visível. Do golpe em si, ocorrido aos meus seis anos, tenho vagas lembranças: recordo minha avó a me levar para longe de uma manifestação no centro da cidade, provavelmente um pouco antes, e de meu pai conversar com meu tio sobre o que achava que ia acontecer, creio que pouco depois.

Na escola, porém, não havia como escapar do clima de repressão. Meu pai não era exatamente um direitista – pelo contrário, deixou Portugal, em parte, por rejeitar o salazarismo –, mas tinha ideias conservadoras sobre disciplina e educação. Escolheu para mim, e depois para meu irmão, um “Ateneu” particular, ainda existente, dirigido por um imigrante húngaro que, como vim a compreender muito mais tarde, era um fascista, talvez mesmo um refugiado da queda do regime do almirante Horthy, aliado de Hitler cujo país acabou ocupado por tropas soviéticas no fim da II Guerra Mundial. Curiosamente foi a mesma escola onde estudou o atual prefeito Fernando Haddad, alguns anos depois. Continue lendo “A ditadura vista da escola: uma memória”

Ler maisA ditadura vista da escola: uma memória