Massacre indígena: primeira higienização social de Teresina

Lutas e batalhas sangrentas levaram a uma completa eliminação dos povos indígenas

Por Mírian Gomes, em Capital Teresina

TERESINA – A história do Brasil é marcada pela forma como os colonizadores trataram os povos que aqui já habitavam. Não diferente do resto do país, nas terras que viriam a ser o estado do Piauí e a capital Teresina, lutas e batalhas sangrentas levaram a uma completa eliminação dos povos indígenas.

O papel de Domingos Jorge Velho

De acordo com Obras Completas, do historiador Monsenhor Chaves, na foz do Rio Poti viviam os índios Putis ou Potis. Em sua obra, ele discorre sobre o massacre e dizimação dos índios em todo o território piauiense.

Sobre essa região em que hoje se encontra a capital piauiense, o historiador defende que houve sim a presença e atuação do bandeirante paulista, o sertanista Domingos Jorge Velho. O bandeirante teria chegado ao Piauí por volta de 1662, como aponta trechos de sua obra:

monsenhor chaves 1

O historiador transcreve ainda a carta escrita por Domingos Jorge Velho de 25 de julho de 1694, na qual relata que teve, ele e suas tropas, de abandonar o Piauí, onde já estavam instalados, para sair em combate ao Quilombo dos Palmares:

domingos jorge velho

Monsenhor Chaves cita ainda o documento remetido em 1704 pela viúva de Domingos Jorge Velho, Dona Jerônima Cardim Frois, ao Rei, em que faz requerimento de sesmaria “desde as nascentes do dito rio Potingh, ou Camarões, até onde se mete aquele no Parnaíba…”, uma referência à foz do rio Poti.

E os índios?

Os livros e documentos abordam com maior riqueza de informações as perseguições aos grupos indígenas do sul do estado, principalmente próximos a então capital do Piauí, Oeiras. Também é bastante citado o levante comandado por Mandu Ladino no alto Parnaíba. Sobre os que aqui estavam antes da instalação da Vila do Poti, restam os breves relatos citados nos diversos livros sobre o assunto, sem maiores detalhes e com lapsos no tempo entre o encontro de índios e colonizadores e a instalação da Vila Nova do Poty. É como uma lacuna da história de Teresina que espera ser preenchida.

Vidas dizimadas. Histórias enterradas

Levando em conta o que está documentado na história do país em relação aos índios do Piauí e do Brasil, não é difícil presumir o destino dado aos que habitavam a foz do Poty. Eles podem ter sido tanto expulsos para outras terras quanto caçados e dizimados.

Foto: Biblioteca Nacional de Lisboa
Foto: Biblioteca Nacional de Lisboa

Tal fato pode ser considerado o primeiro caso de higienização social da história de Teresina, quando nessas terras os interesses dos que queriam aqui estabelecer moradia e fincar negócios, sobretudo voltados à pecuária, se chocaram aos costumes e à liberdade dos que aqui já se encontravam. Interesses contrariados, vidas dizimadas.

“Para conhecer e entender melhor esse momento da nossa história, locais como os que estão sofrendo interferência do Programa Lagoas do Norte precisam ser melhor preservados e estudados”, defendeu o historiador e técnico do Iphan, Ricardo Pereira. É preciso que haja intervenções públicas que levem em consideração as histórias recentes, histórias antigas, histórias enterradas.

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