“De todos os objetos… os que mais amo são os usados (um olhar pastoral sobre os conflitos no campo e os movimentos sociais no Brasil)”

fogão a lenhaPor Nancy Pereira*

Os movimento sociais são objetos usados, impregnados de uso e, por isso mesmo, plenos de sinais do tempo. Objetos como utensílios, coisas de usar e precisar, coisas de fazer caber a água, a farinha, o pão. No poema de Brecht as bordas amassadas das vasilhas, a madeira do cabo da colher já gasta são consideradas “materiais nobres” porque usados, gastos.

De todos os objetos, os que mais amo são os usados.
As vasilhas de cobre com as bordas amassadas,
os garfos e as facas cujos cabos de madeira
foram colhidos por muitas mãos.
Estas são as formas que me parecem mais nobres.
Estes ladrilhos das velhas casas
gastos por terem sido pisados tantas vezes,
estes ladrilhos onde cresce a grama
me parecem objetos felizes.
Impregnado do uso de muitos,
a miúde transformados, foram aperfeiçoando suas formas
e se fizeram preciosos porque tem sido apreciados muitas vezes.
Agradam-me, incluso, os fragmentos de esculturas com os braços cortados.
Viveram também por mim.
Caíram porque foram trasladados.
Derrubaram-nas, talvez, porque estavam muito altas.
As construções quase em ruína parecem todavia projetos sem acabar,
grandiosos; suas belas medidas podem já imaginar-se,
mas ainda necessitam de nossa compreensão.
E além do mais já serviram, inclusive já foram superadas.
Todas estas coisas me fazem feliz.
Bertold Brecht

O trânsito, o tráfego de ser pisado tantas vezes num mesmo lugar desgasta os ladrilhos  “das velhas casas”;  entre as fissuras do tempo e do uso a grama se insinua: e são ladrilhos felizes. Gastos ladrilhos fissurados e felizes.

O “uso de muitos” transforma e aperfeiçoa formas, tantas e tantas vezes visitados, movidos os objetos usados se fazem preciosos. Nobre e preciosos não porque novos e inovadores. Nobres e preciosos porque persistentes, remanescentes, insistentes.

O poema vai se ocupar também de objetos que existem de forma fragmentada, que já foram outra coisa “com braços” e inteireza… mas agora se apresentam assim como se alguma coisa faltasse – alguém diria: mas “viveram por mim”! foram trasladados! sofreram mudanças! foram derrubados! caíram! existiram! ocuparam espaços! e por isso mesmo foram derrubados… e continuam a ser amados.

Uma terceira categoria são as construções em ruína que necessitam da nossa compreensão: se foram belas e de grandiosas medidas no passado se parecem agora com projetos interrompidos, projetos sem acabar. E aí? serviram! são formas que responderam às pretensões de um tempo e… foram superadas, mas continuam projetos inacabados e oferecem espaço para a imaginação: suas belas medidas! os desejos projetados e sua provisoriedade.

“Todas estas coisas me fazem feliz.”

O poema indica a história como critério de avaliação: não a história dos grandes feitos e dos grandes nomes, mas a história das cotidianas coisas em seus usos. Assim também os movimentos sociais são continuidades, são acúmulos de demandas. As organizações populares e suas bordas amassadas. A madeira gasta das formas políticas ao longo da história que não podem ser avaliados por seus sucessos… mas pela impregnação de uso. Foram muitas mãos, muitas vidas que aperfeiçoaram as lutas políticas e de tão pisados pelo próprio povo em suas assembleias, marchas e manifestações deixaram marcas organizativas. Vencidos, violentados, trasladados: viveram também por mim e pelo povo organizado nos movimentos. Resgatar os projetos inacabados, derrubados de tão altos. As belas medidas da luta histórica de nossos povos ainda precisam de nossa compreensão… também aquelas que já serviram e foram superadas.

Mas as coisas… as necessarias não tem paz!

Nas palavras de Cláudia Korol[1]:

Dando una nueva vuelta desde el punto de vista de los vencidos y vencidas, pero afirmándome en la perspectiva latinoamericana sobre la memoria, quisiera agregar con Roque Dalton[2], que “los muertos están cada día más indóciles”.

Cada día más indóciles, cada día más rebeldes… y así como el enemigo no ha dejado de vencer, los pueblos no han dejado de resistir y crear nuevos espacios y posibilidades para que vivan los sueños de cambiar el mundo, y se vayan materializando en transformaciones sociales populares. Los muertos y muertas, los caídos y caídas en nuestra América Latina, son una realidad  lacerante que sigue escribiendo día a día la historia. Porque el capitalismo en estas tierras es hijo del colonialismo, del imperialismo, del patriarcado, de las muchas formas de violencia y de dominación; y también es hijo de la impunidad y del olvido, del ocultamiento, de la tergiversación de la memoria realizada por los vencedores.

Pensar América Latina es aprender a destejer la historia oficial, para recuperar las señales casi imperceptibles que cada gesto popular de resistencia a la opresión inscribe en nuestra subjetividad, guarda en nuestros cuerpos, y siembra en nuestras tierras.

Nossos povos têm suas expressões históricas e culturais de si mesmos que se expressam e se organizam de forma plural e diversa em “movimentos sociais”. Os motivos e os porquês da organização “de movimentos” ou “em movimentos” constituem um repertório de itens materiais e de subjetividades que vão desde as questões vitais de sobrevivência coletiva até o enfrentamento das estruturas políticas e econômicas. São estas materialidades e afetividades que alimentam as lutas históricas de resistência e libertação no continente latino-americano.

Marcados por um processo violento de luta de classes na periferia do capital internacional, estes movimentos e seus modos de vida transitam entre o originário e o moderno, o antigo e novo, o valor e o não-valor como conflito permanente e criativo.

As utopias históricas da Pátria Grande Latino-Americana, os processos de independência tocaram nestas questões nem sempre com paciência e sabedoria de escutar possíveis respostas autóctones. Os projetos de Nação e Continente se impuseram por renovados processos de colonialidade que desconheciam as fantásticas realidades das maiorias índias e negras. As formatações teóricas e programáticas de certos movimentos emancipatórios importados foram um elemento a mais de violência incapazes que foram de dialogar com o realismo fantástico de outras geografias e suas formas de luta, suas identidades plurais.

Os movimentos sociais não são “idealizações” mas articulam a materialidade cotidiana das formas populares de poder e de disputa. As condições objetivas e subjetivas de organização não se dão em vazios políticos e vivenciais, mas reúnem e convivem com contradições, ambigüidades. São simultaneamente práxis e exercício de identidade que coloca os/as pobres na fronteira entre o real e o utópico.

Por tudo isso, as formas organizativas não correspondem a nenhum modelo, não se comportam com um elenco de virtudes pré-estabelecidas, convivem e estranham formas equivocadas de poder: as bordas amassadas dos movimentos. Impregnados do uso de muitos os movimentos sociais sofrem a ação do tempo e sofrem metamorfoses desejadas ou não.

Os movimentos sociais possuem um caráter educativo que se dá na prática política, nos processos de interação, nas negociações, nas relações com mediadores. Tanto na dimensão da organização política, como na dimensão de uma cultura de classe os Movimentos estabelecem novas aprendizagens e novas tarefas que são vitais na consolidação de circuitos de gestão do trabalho coletivo, da produção do saber a serviço da classe, na organização do espaço e do tempo em função de seus interesses. Se agências e teóricos desistiram da dimensão classista da luta popular, os movimentos sociais fazem das definições exercícios políticos: uma nova morfologia da classe trabalhadora inclui a diversidade dos sujeitos sociais da classe-que-vive-do-trabalho.

Na América Latina de modo exemplar os movimentos sociais são criminalizados pelos aparatos judiciários e demonizados pela mídia e as elites. As fragilidades reais dos movimentos sociais não podem ser confundidas com as imagens criminosas e demoníacas que as agências burguesas veiculam. Neste sentido é vital a manutenção destes dois aspectos: 1- o resgate da história, do uso de muitos; e 2- a necessária construção de um olhar sobre as belezas interrompidas ou inacabadas. O desenvolvimento no interior dos movimentos sociais de símbolos identitários da luta – críticos e criativos – que valorizem as bordas amassadas e celebrem os projetos interrompidos, revelam o lugar importante da mística da luta.

…”o bloqueio das estradas com acampamentos de semanas, as grandes panelas dos sopões feitos nesses acampamentos, as enormes e coloridas bandeiras utilizadas nesses atos, barricadas feitas de pneus queimando, os paus e os lenços cobrindo o rosto contra a repressão…”[3]

Uma terceira tarefa pastoral seria não deixar que homens e mulheres sejam mortos na luta pela terra. Mas são. Temos que ser mais e melhores para cuidar. Mas aqui está o Caderno de Conflitos para que não sejam esquecidos, para que não fiquem sem ressurreição. Estes que foram cortados… viveram também por mim. Caíram porque foram trasladados. Derrubaram-nas, talvez, porque estavam muito altas. Lideranças de comunidades assassinados viveram por mim, por nós.  Nomeio cada companheiro e companheira que foram mortos na luta pela terra em 2012 porque fazem falta! e são [email protected]!

  • Renato Nathan Gonçalves Pereira
  • Gilberto Tiago Brandão
  • Ercias Martins de Paula
  • José Barbosa da Silva, “Zé Albino”
  • Orlando Pereira Sales, “Paraíba”
  • João Oliveira da Silva Kaxarari
  • João Luiz Telles Penetra “Pituca”
  • Almir Nogueira de Amorim Araújo
  • Pedro Bruno
  • Antônio Tiningo
  • Claudemir Ferreira da Silva
  • Cacique Geusivan Silva de Lima
  • Célio Tigre
  • Edvaldo da Silva, “Divaldinho”
  • Abiair Amaral Gusmão
  • Josivani Amaral Gusmão
  • Mamede Gomes de Oliveira
  • Valdir Dias Ferreira
  • Milton Santos Nunes da Silva
  • Clestina Leonor Sales Nunes
  • Adenilson Kirixi Munduruku
  • Raimundo Alves Borges, “Cabeça”
  • Francisco da Conceição Souza Guajajara
  • Maria Amélia Guajajara
  • Carlinhos
  • Edvaldo Bispo de Santana
  • Raimundo Nonato da Silva Chalub, “Rato Branco”
  • Francisnilson João Constante de Souza
  • Dinhana Nink
  • Edvaldo Rodrigues Ferreira
  • E em 2013 Cícero Guedes e Regina dos Santos Pinho. Presente!

* Nancy Pereira é pastora metodista e integrante da CPT.

[1] Intervención realizada el 4 de junio de 2013 en el Auditorio del Instituto Sedes Sapientiae, en el curso organizado por la Escola Nacional Florestan Fernandes, el CEPIS (Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapientiae) y el Departamento de Jornalismo da PUC-SP, con el apoyo de Brasil de Fato y Expressão Popular. Versión corregida en julio del 2009. mimeo.

[2] Roque Dalton, poeta y guerrillero salvadoreño

[3] FERNÁNDEZ, Marco, A falta que faz a mística: o desafio da identidade piqueteira, Margem Esquerda n.9, São Paulo: Boitempo, 2007, p. 47

Enviado para Combate Racismo Ambiental por Ruben Siqueira.

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