Mineradora demorou duas horas para avisar governo sobre rompimento

Estevão Bertoni, Folha de S.Paulo

A mineradora Samarco demorou duas horas para avisar o órgão do governo de Minas que atende emergências ambientais sobre o rompimento de sua barragem há exato um mês, segundo documento da Secretaria de Meio Ambiente do Estado ao qual a Folha teve acesso.

Por lei, a comunicação teria de ser imediata.

Relatório do NEA (Núcleo de Emergência Ambiental), órgão da secretaria que mantém um plantão 24 horas para atender acidentes, registrou às 17h39 a ligação de um gerente da Samarco identificado apenas como Euzimar.

O rompimento da barragem ocorreu por volta das 15h30. Segundo os bombeiros, às 17h30 a lama estava na comunidade de Paracatu de Baixo, a cerca de 26 km. Àquela altura, os 40 bilhões de litros de rejeitos de minério que vazaram da estrutura já haviam destruído o subdistrito de Bento Rodrigues, a cerca de 5 km da empresa.

Com a ruptura, 15 pessoas morreram (quatro desses corpos aguardam identificação), segundo balanço atualizado da Polícia Civil divulgado ontem (4). Oito estão desaparecidas e 637, desalojadas.

A Samarco alega que avisou as autoridades antes, mas só formalizou o aviso às 17h39. A empresa, porém, não respondeu sobre a que horas teria feito esse outro alerta. No NEA, não há menção a telefonemas anteriores.

Conforme a Folha revelou, o plano de emergência da mineradora não previa uma estratégia de alerta aos moradores das redondezas.

O decreto 44.844/2008, do governo de Minas, obriga os responsáveis pelo “empreendimento que provocar acidente com dano ambiental” a informá-lo “imediatamente” à secretaria.

O decreto prevê multa para quem não comunica os acidentes, mas não dá valores.

Outro documento do NEA mostra que a Samarco já havia demorado neste ano a comunicar um incidente.

Em 29 de maio, foi registrado às 15h45 um “vazamento da rede de rejeito arenoso do terceiro concentrador [aparelho que separa minérios]”. O material afetou o quilômetro 117 da rodovia MG-129, que liga Mariana à unidade da Samarco. O governo só foi avisado às 9h17 do dia seguinte.

Diretora de prevenção e emergência ambiental da secretaria, Wanderlene Nacif diz que a prioridade, no caso de Mariana, era avisar as equipes de resgate às vítimas.

“Se aconteceu às 15h40 e às 15h42 a gente soubesse, seria o mundo perfeito. Mas, considerando todas as medidas a serem tomadas, a gente compreende esse período.”

OUTRO LADO

A Samarco, empresa que pertence à Vale e à anglo-australiana BHP Billiton, afirmou, por meio de nota, que a comunicação da tragédia à Secretaria de Meio Ambiente de Minas, às 17h39, duas horas após o rompimento da barragem em Mariana, é uma “formalidade de avisos feitos prioritariamente e imediatamente por telefone”.

“No dia 5, em função da urgência, a Samarco avisou as autoridades imediatamente por telefone e depois formalizou a comunicação”, afirmou a empresa. Os registros do NEA (Núcleo de Emergência Ambiental), órgão ligado à secretaria, porém, não citam contatos anteriores.

Sobre o vazamento da rede de rejeitos em 29 de maio, a Samarco diz que um primeiro aviso foi feito às 18h do próprio dia, o que também não aparece nos documentos.

Imagem: Ruínas de escola após passagem de lama da barragem de rejeitos da Samarco em Mariana (MG) / Avener Prado -Folhaexpress

Enviada para Combate Racismo Ambiental por José Carlos.

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