Sonia Bone Guajajara: “não vamos abrir mão da nossa luta em defesa dos nossos direitos!!!”

apibPor Sonia Guajajara*

Há dois dias das eleições, o cenário que se apresenta para nós povos indígenas não é nada animador, e o pior mesmo é ver os parentes nas regiões fechando alianças com candidatos a Deputados Estaduais e Federais que escancaradamente têm manifestado posicionamentos contrários aos nossos interesses. Pior que obscuro, é a clareza dos interesses antagônicos às questões indígenas e ainda ver gente deixando se enganar com dinheiro sujo de campanha por meio da compra de votos disfarçada.

Para a presidência da República das três candidaturas à frente segundo as pesquisas, mesmo não havendo manifestações explícitas, e de fundo, a favor ou contra da questão indígena, ela é afetada querendo ou não pelo atual momento político onde se confrontam projetos políticos, todos por igual alheios aos interesses populares, portanto, aos interesses indígenas. Vejamos um pequeno resumo do perfil de cada candidat@ para ajudar na reflexão:

– Um neodesenvolvimentista, da Dilma, focado na reprimarização da economia, nos grandes empreendimentos, na industria extrativa, no agronegócio e na paralisação da Demarcação das Terras indígenas em prol das alianças políticas e econômicas.

– O da Marina não mostra diferenças substanciais, poderá até se aproximar das questões indígenas e ambientais sob o risco da priorização da economia verde e sem muitas condições de se contrapor aos tradicionais inimigos dos povos indígenas.

– Outro representado por Aécio Neves que é de corte neoliberal, conservador e privatizante, totalmente defensor do agronegócio e do latifúndio sem possibilidade mìnima de relação com povos indígenas.

No Congresso Nacional as ameaças continuam latentes. Além dos conhecidos projetos de lei e PECs (PL 1610, PEC 215 etc.), o próprio governo pautou a tramitação do Projeto do Patrimônio Genético, que está em regime de urgência, situação que favorece obviamente a bancada ruralista.

Nos últimos meses, ruralistas foram pegos pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal confessando que agem em duas frentes:

– Advogado da CNA, pago pelos ruralistas, redige parecer do Deputado Serraglio, relator da PEC 215;

– Ruralistas financiando as articulações antiindígenas em Mato Grosso e outros estados.

No Executivo, a morosidade, paralisia e até redução de terras indígenas se consolidaram como decisões de governo, que somam-se à crescente criminalização de lideranças e comunidades.

E por último a saída repentina da Presidenta da FUnAI por não compactuar com as imposições do pior Ministro da Justiça de todos os tempos o Eduardo Cardozo que além de paralisar as demarcações de terras indígenas com casos consumados de diminuição, recentemente com desculpas esfarrapada vetou a saída do cacique Marcos Xucuru para participar da Conferência Mundial dos povos indígenas em Nova York , porque Marquinhos defenderia lá a voz dos povos indígenas do Brasil.

>Lá, ele se apresentou como o grande defensor dos Direitos indígenas, chegou até sugerir e convidar um parente indígena para presidir a FUnAI pela primeira vez (conforme post no facebook), sabendo ele que suas reais intenções com esse pleito é desmoralizar os povos indígenas, pois com a FunAI, sucateada, quebrada, sem autonomia pra nada, nenhum de nós teria condições para fazer um trabalho diferente e assim ele ainda jogaria os povos contra os parentes dizendo que não faz porque não quer, pois estamos com cargo máximo do órgão; fragilizar e dividir o movimento indígena, pois sabe que as organizações indígenas jamais aceitariam a indicação de um indígena por imposição do Ministério da Justiça, isso geraria muitos conflitos entre os povos e as regiões.

Precisamos sim lutar para ocupar esses espaços, mas, mais importante do que ocupar espaços públicos é lutar pela garantia de um órgão fortalecido, estruturado, autônomo politicamente e com recursos financeiros que dê conta de atender as distintas realidades dos territórios indígenas, a começar pela retomada das declarações demarcatórias.

Portanto parentes, mais do que nunca precisamos estar juntos e fortes!!

A nossa força e as nossas mobilizações continuam importantes e necessárias, não vamos abrir mão da nossa luta em defesa dos nossos direitos!!!


*Membro da Coordenação Executiva da Articulação dos Povos indígena do Brasil – APIB.

Comments (2)

  1. Os direitos dos povos indígenas e originários do Brasil têm que ser incorporados pela nação e como plurinação brasileira, reconhecendo o direito dos indígenas de ter suas nações e cosmovisões. Se algum indígena ocupar atualmente a FUNAI como está, sem as mudanças do Estado, estará corroborando com o processo de genocídio e etnocídio dos povos indígenas que infelizmente está mocorrendo. É necessário estar alerta. Estou com vocês. Estamos juntos.

  2. Avaliação corretíssima de Sonia Guajajara, principalmente no que cabe a FUNAI, Espero que os índios não se deixem iludir com essa história de ser Presidente da FUNAI é a maior fria. É transferir aos indios o fracasso premeditado que tem sido a politica indigenista do atual governo.

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