Tenharim: na onda de boatos, falácia e desinformação não têm limites

Foto: internet
Foto: internet

Tania Pacheco – Combate Racismo Ambiental

O Portal Rondônia Agora está divulgando hoje, 3 de fevereiro (veja foto abaixo), informação de que 120 indígenas Tenharim teriam bloqueado por horas a Transamazônica: “armados com arcos e flechas e pintados para a guerra, eles queimaram pneus e colocaram troncos de árvores impedindo a passagem de veículos”. No que seria um protesto contra as prisões do dia 30, a coisa teria sido ainda pior. Cito:

“O clima na região voltou a ficar tenso depois que quatro funcionários da Embratel relatarem que os índios tentaram prende-los em uma aldeia, onde estavam tentando resolver um problema na fiação telefônica dentro da reserva há três dias.

Como não davam noticias há mais de quarenta e oito horas, os familiares dos homens registraram boletim de ocorrência em Apuí, no sul do Amazonas. Ao chegarem na cidade, os homens disseram que a intenção dos índios era usa-los como “moeda de troca” numa suposta negociação pela soltura dos índios presos”.

Na entrevista que fiz ontem com Ricardo Albuquerque, o advogado dos Tenharim, cheguei a mencionar a notícia de que estava sendo repetida desde o dia 31, no Portal Apuí: três homens teriam deixado a cidade em direção à aldeia Tenharim do Igarapé Preto, pela Rodovia do Estanho, e ‘desaparecido’. Segundo o portal, seriam um técnico da Telemar (Martinho Andrade Carvalho, que iria consertar um telefone na aldeia) e dois desconhecidos, 24 horas depois identificados como Alan Catarino Pinheiro e Edimar Freitas Gusmão, de Apuí.

Embora levantasse inicialmente a hipótese de que eles “estejam presos na estrada devido às condições da mesma”, a chamada utilizava foto da Publica, usada na reportagem de Alceu Castilho, com o título “Mais três desaparecidos”. À medida que as horas foram passando,  e ainda com a ajuda do Estadão (Aldeias declaram estado de guerra em protesto contra a prisão de indígenas), principalmente, e da da Folha de São Paulo, (citada como autora da manchete “Em estado de guerra Indígenas ameaçam sequestrar moradores”, que não consegui encontrar) a bola de neve foi aumentando, assim como os ânimos das pessoas que a comentavam, já para além do portal.

Finalmente, ontem pela manhã, o próprio Portal Apuí registrava (ver também foto abaixo):

“Três pessoas que estavam desaparecidas na reserva indígena Tenharim do Igarapé Preto foram resgatadas no início da noite de sábado. Eles tiveram problemas no carro e caminharam cerca de 20 km até chegar a um barracão abandonado onde outras pessoas estavam acampadas. Foram encontrados pelo dono da empresa de transporte que levou o técnico da Embratel até a aldeia.

Eles não foram ameaçados pelos indígenas. Não conseguiram retornar apenas por causa de problemas na estrada e no veículo. As três pessoas que estavam desaparecidas, bem como a equipe de resgate já estão em Apuí”. (grifo deste blog)

Pelo visto, o Rondônia Agora esqueceu de fazer o dever de casa pela internet, conferindo pelo menos se a fonte das notícias não tinha qualquer novidade. E presumo isso porque não quero presumir coisa pior, se considerar inclusive o espaço publicitário que encabeça a página: “E só existe uma maneira de amar Rondônia. É continuar a saga dos bandeirantes…”. Sem comentários.

Abaixo, as fotos das notícias:

Rondônia Agora - bloqueio da BR e sequestro

O desmentido do Portal Apuí, com um comentário bastante revelador:

Portal Apuí - desmentido do sequestro

 

Comments (7)

  1. Nesta guerra deflagrada contra os Povos Indígenas a informação tem um peso fundamental. Não há lugar para inocentes. As notícias veiculadas em desfavor dos Tenharim são incontáveis. Daí a importância da contra informação.

  2. Murilo,
    gostaria muito de poder publicar seu comentário, mas a regra é para [email protected]: nome, sobrenome e e-mail.
    Inclusive porque, atualmente, parte das pessoas que não se identificam o fazem exatamente porque pensam que assim poderão escrever comentários virulentos, quado não ameaçadores.
    Não é absolutamente o seu caso, mas…
    Tania.

  3. Essa providência será tomada, sem dúvida, quando a fonte originária reformar sua informação. Como dissemos, a fonte é confiável. É um veículo de comunicação sério, e, ao seu tempo, se errou, vai corrigir. Aguardaremos. Obrigado.

  4. O dever da imprensa é noticiar.
    O dever da imprensa é bem se informar para informar.
    Sou comunicador social do Programa Vozes da Amazônia na rádio Caiari aos domingos das 9 as 10:30 e tenho o máximo de cuidado na fonte de minha informação.
    Diante do cenário de violação de direitos humanos, de modo particular dos povos indígenas, com intensa manifestação etnocêntrica em função do caso Tenharim, logo requer tomar mais cuidado com as informações para não intensificar o espírito antiindígena na Amazônia á partir deste fato.

  5. Prezado Senhor/a,
    Buscar a verdade é sem dúvida a questão fundamental para a boa informação. Concordamos plenamente.
    Assim sendo, considerando já ser de seu conhecimento o fato de sua fonte ter-se baseado em relatos ultrapassados de moradores de Humaitá, feitos no início da madrugada de domingo, quando na verdade as três pessoas teriam sido encontradas e levadas de volta a Apuí no início da noite de sábado, parece-me seja o caso de corrigir a notícia, de forma a evitar que as pessoas que buscam informar-se no Rondônia Agora não se frustrem.
    Atenciosamente,
    Tania Pacheco.

  6. Prezada senhora, como pode ter visto, publicamos que as informações eram do Jornal Amazonas em Tempo, que para nós, tem a credibilidade necessária para repercutirmos seu material. Não há qualquer interesse em fomentar discórdia ou injustiça. Apenas noticiamos a verdade. Veja aqui nossa fonte de informação, noticiada a nossos leitores, como habitualmente fazemos. http://www.emtempo.com.br/editorias/dia-a-dia/14237-tenharins-fecham-rodovia-em-protesto-%C3%A0s-pris%C3%B5es-de-membros-da-tribo.html

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.