A lama da Samarco e o Carrinho de Cachorro Quente, por Antonio Claret Fernandes

Em Combate Racismo Ambiental

Sofia está deitada, mas não consegue dormir. A história de Riso, atingido pela lama da Samarco em Barra Longa, não lhe sai da cabeça. Ele sonha com a volta ao trabalho. E reivindica um Carrinho de Cachorro Quente da Samarco. Mas a ideia não dá certo. A empresa acha o preço caro: quatro mil e oitocentos reais. ‘É um Carrinho melhor’, Riso se justifica. Mas não adianta. O Capital faz conta de cada centavo. Duro igual pedra. Dizem-no sem alma. Enquanto Riso quer trabalhar pra tocar sua vida, os donos da Samarco querem retomar a exploração de minério em Mariana e, para isso, precisam guardar cada real próprio, usar o cofre do Estado em nome do ‘ocorrido’ – apelido dado pela empresa ao crime – e embolsar algo em torno de meio trilhão de reais.

Sofia se vira na rede, fica de lado, encolhida. E sente que, finalmente, o sono a vai tomando. Mas um riso incontrolado e repentino a invade. Lembra-se de uma coisa boba, mas não se aguenta. Durante o dia, na Rua, alguém tinha chegado perto dela e feito um comentário sobre a situação de Riso: ‘não fica bem para um empresário empurrar um carrinho pela rua’. A resposta dela vem na ponta da língua: ‘a lama da Samarco é tão forte que quebra até preconceito’!

Sofia dorme, rindo daquilo.

Tudo começou no dia cinco de novembro. Sofia estava em BH e recebe telefonema de São Paulo. Um militante do MAB lhe avisa: ‘barragem da Samarco se rompe em Mariana!’.  Ela torce pra ser engano. Mas não! Faz contato na cidade histórica e um amigo lhe confirma a informação, com o agravante: ‘há vítimas fatais’.

A lama das empresas VALE/BHP/SAMARCO vem descendo, destrói Bento Rodrigues, cai no leito do Gualaxo do Norte, chega ao Carmo, em Barra Longa, na madrugada do dia seis, percorrendo sessenta km em onze horas e, curiosamente, pega as pessoas totalmente desprevenidas. Por quê? Negligência. Barra Longa toda fica entre assustada e descrente naquela madrugada, pois a informação dos riscos, correndo de boca em boca pelas ruas, cheira a boato.

Riso, com sua casa e pousada-restaurante praticamente dentro do Rio, um lugar muito especial, pega o telefone e liga para a Samarco para certificar-se do real impacto na cidade. ‘Se a lama chegar a Barra Longa vai ser insignificante’, diz o funcionário da empresa. Então ele respira, aliviado. Sua família, sua moradia, seu ganha-pão, os vizinhos com todos seus pertentes estariam a salvo.

O sossego de Riso, e de sua família, e de seus vizinhos, dura pouco. A lama das empresas mineradoras chega à cidade com uma força colossal, num ruído estarrecedor; por um período de cinco horas, desce num barulho parecido ao de helicópteros parados no ar. A lama, que sobe cinco metros, vem trazendo madeira, carros, utensílios domésticos, animais mortos e corpos humanos, arrebentando e carregando tudo o mais que encontre pelo caminho. Os quintais, a Volta da Capela, a Praça, os comércios, a escola, o Morro Vermelho, tudo vai se tornando um mar de lama. A empresa já cadastrou duzentas e sessenta famílias. Entre elas, mais de oitenta produtores. A parte de baixa de Gesteira, comunidade rural, foi riscada do mapa. Um dilúvio! Todos os moradores saem às pressas e salvam suas vidas, mas a maioria não tem tempo pra tirar nada.

A quantidade de pessoas prejudicadas, na verdade, é muito maior. Pois a empresa chegou nesses números usando um conceito de atingido extremamente restritivo: aquele que levou lama!

A casa de Riso é interditada pela Defesa Civil do Estado naquele fatídico final de semana. Hoje, quarenta e dois dias depois, as incertezas o fazem sofrer muito. ‘Ainda bem que tem você, Sofia, e posso desabafar’, diz. Ele está em moradia alugada pela empresa e proibido de entrar na sua casa. Tudo que ele construiu e adquiriu com o suor do seu trabalho está lá. Às vezes Riso chora.  Acostumado à lida diária, até tarde da noite, no restaurante e na pousada, costumava levantar-se às oito e meia. Agora acorda às cinco da manhã e não consegue pegar no sono de novo. Está estressado.

Ouvindo o caso de Riso e de tantos outros, Sofia percebe, claramente, o drama presente e o trauma que, certamente, ficará por muito tempo. Tantas histórias não lhe saem da memória: o homem de meia idade que, embora faça hemodiálise três vezes por semana em Ponte Nova, é esquecido em sua casa atingida pela lama, respirando poeira tóxica, com o corpo empolado de alergia; a senhora  doente, de quem a empresa exige um laudo sobre sua falta de força para esfregar roupa como condição para ter outra máquina de lavar roupa, a sua nem sabe onde foi parar; a mulher que reclama, com os olhos lacrimejantes: ‘queria uma visita, um abraço, agora estou bem aqui na reunião, me desculpem pelo desabafo’.

Esse é um risco real: num crime social e ambiental tão grande, a Pessoa pode ser considerada uma ‘coisa’ pequena e ficar esquecida. Isso vem ocorrendo com vivos, em situação vulnerável, com as pessoas mortas, vítimas desse crime. Vão ficando apenas na memória dos parentes, inconformados. Ontem, 16 de dezembro, foi encontrado o décimo sétimo Corpo. Quantos ainda faltam?

Diante de tanto sofrimento, e após tantas reivindicações, a Samarco pensa ter encontrado a solução: contratar psicólogos! Sofia anda desconfiada de que isso não vai resolver. Primeiro porque são pagos pela empresa: quem contrata a banda escolhe a música. Depois, porque Sofia tem notado que, no momento, as pessoas estão transtornadas mais pela incerteza do futuro do que pela lama do dia seis, de madrugada. Nesse caso, a plena garantia do direito seria o melhor remédio.

No seu pensamento dialético, porém, Sofia já vê alguns sinais promissores em meio ao lamaçal. Isso é bom! Muita gente achava que tinha perdido tudo e pronto e, agora, está disposta a lutar pelo direito. E o que a empresa chama de ‘antecipação de indenização’, um valor em caráter emergencial, os atingidos começam a entender como ‘indenização atrasada em pequenas parcelas’.

A Samarco, no entanto, não dá o braço a torcer: ameniza o rompimento de Fundão, chamado de ‘o ocorrido’; cria um centro de atendimento dos casos, individualmente; divide os atingidos por categoria; faz de tudo para atrapalhar a organização do povo. Ainda bem que, ao menos nesse momento, pouca gente acredita nela.

Essa consciência do direito e da importância da luta alegra Sofia. Mas há outra coisa de que ainda gosta mais: a ideologia do dominador enraizada na cabeça de tantos, separando as pessoas por rua, por cor de pele, está em xeque. O caos criado pela lama da Samarco desorganizou a cabeça de muita gente, e impõe reflexão. Pensamentos cristalizados em preconceito viram pó.

Da imensa dor imposta aos barra-longuenses pela lama da Samarco pode-se criar a chance de Barra Longa unificar-se. Esse é o ‘lado bom’ do inimigo comum.

Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres.

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