Nota denúncia do Conselho de Gestão Ka’apor sobre incêndio criminoso na T.I. Alto Turiaçu

“A nossa luta continua! Não foi caminhões, nem tratores, nem Moto-serras e nem os incendios que vão impedir nós de proteger e viver em nossa verdadeira casa, a floresta”

Desde maio de 2013 até março de 2015 fechamos todos os ramais de entrada de madeireiros que invadiam e destruiam nossa floresta, nossa casa. Até esse periodo criamos 08 Ka’a usak ha, ou Áreas de Proteção para recuperar, proteger, viver de forma sustentavel em nosso territorio. Depois de iniciar muito forte a fiscalização, limpeza de nossos limites, encontramos madeireiros, fazendeiros, estaqueiros, caçadores e posseiros que usavam nosso territorio sem autorização da gente.

Esses agressores usavam e usam os limites ou áreas dentro de nosso territorio com permissão de funcionarios da Funai, de prefeituras, do INCRA e de sindicatos para tirar madeira, colocar pastos, colocar roças grandes, tirar estacas para fazendas, para movelarias, para ceramicas, para panificadoras nas cidades. Entravam principalmente para derrubar árvores, tirar a madeira e capturar animais. Nunca as fiscalizações do governo (IBAMA, Policia Federal, Funai, Exercito) conseguiram resolver e acabar com esses tipos de destruição. Por isso que nós, por conta própria, resolvemos nos organizar, defender e proteger nosso territorio.

Começamos fiscalizando e limpando nosso limites, quando identificamos as áreas de maior destruição. A partir dai iniciamos o nosso etnomapeamento que ajudou a gente identificar todos os limites do nosso territorio, fazer vários mapas de nossa área. Esse trabalho ajudou a gente identificar tanto as áreas destruidas quanto os grupos e pessoas que entravam, entram e destroem.

Vimos que a melhor maneira para evitar o aumento dessa destruição foi morar nessas áreas destruidas para recuperar plantando espécies de árvores que tinham antes, para os animais voltarem a viver ali e a gente ter caças para o nosso alimento, os pássaros voltem a viver nessas áreas para a gente criar e tirar suas penas para fazer nossas roupas tradicionais (cocares, braçadeiras, pulseiras, colares), proteger da entrada desses invasores e plantar pequenas roças com diversas culturas produtivas para a gente ter bastante e diversos alimentos para gente ter um bem viver.

Mas, depois que a gente criou essas áreas de proteção, agora, depois de dois meses a gente vem sendo impedido, perseguidos e até ameaçados de entrar nessas áreas por fazendeiros, pistoleiros, posseiros (incentivados por madeireiros e fazendeiros), alguns assentados do INCRA que, pressionados por madeireiros e fazendeiros, tem vendido seus lotes para fazendeiros e madeireiros, permitido a destruiçao de suas reservas para retirada de madeira, para grandes extensões de pastos. Isso está acontecendo principalmente nos municipios de Centro do Guilherme, Maranhãozinho, Santa Luzia do Paruá, Nova Olinda do Maranhão, Araguanã e Zé Doca. Todos esses municipios fazem limites com nosso territorio.

A gente está preocupado porque eles estão impedindo e ameaçando nossas famílias de proteger essas áreas, sair para outras aldeias, ir para cidade quando precisam. Prova de tudo isso, a gente continua vendo madeira e estacas saindo de um ramal que foi reaberto por madeireiros no municipio de Nova Olinda do Maranhão. A gente vê serrarias em Zé Doca, Araguanã, Santa Luzia do Paruá, Centro do Guilherme e Governado Nunes Freire (Encruzo) funcionando mesmo com a fiscalização momentanea do ibama. As serrarias do municipio de Encruzo nunca pararam de funcionar. A gente não vê nenhuma fiscalização intensa dos governos nestes locais.

Ha mais de um mês os incendios foram colocados criminosamente nos limites do territorio indigena pelos madeireiros-fazendeiros que atam na regiao em represalia ao trabalho dos Guardas Agroflorestais Ka’apor e ações pontuais do Ibama. Ninguém é multado, nem preso e nem acionado pelo governo para ser responsabilizado pelas ações criminosas. A policia nunca prendeu o assassino que matou Eusebio e mais parentes estão correndo perigo na entrada de nossas áreas de proteção e das aldeias.

A gente não aceita que a violencia desses agressores continue impedindo a gente viver com dignidade em nosso territorio. Por isso, que nosso povo está vigilante, atento e unido pra defender nosso territorio, nossa verdadeira casa que é a floresta.

Conselho de Gestao Ka’apor.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Cláudio Teixeira.

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