As mulheres não querem migalhas que caem da mesa. Querem um novo pão, por Maíra Kubik Mano

No Blog do Sakamoto

Homens que possuem espaço na mídia foram instigados a ficarem como espectadores nesta semana, ao invés de escreverem e publicarem textos sobre os direitos das mulheres e questões de gênero. Ou seja, promoverem uma ocupação de seu espaço para que elas falassem por si. Portanto, de segunda a domingo (8), mulheres de diferentes origens, histórias e regiões estão publicando, neste blog, sobre o tema dentro da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas.

Hoje o blog é de Maíra Kubik Mano, jornalista, doutora em Ciências Sociais e professora do bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia.

(E aqui gostaria de fazer um breve, mas importante, agradecimento: Ao longo da vida, vamos encontrando pessoas que nos educam ou reeducam para não sermos inimigos das mulheres. Se hoje sou um homem menos idiota, creio que devo isso, em muito, a ela.)

Os outros já publicados nesta série são: Segunda (2) – Juliana de Faria e Luíse Bello, do Think Olga, responsável pela campanha #primeiroassedio; Terça (3) – Karina Buhr, cantora, compositora, atriz e ativista; Quarta (4) – Djamila Ribeiro, filósofa e feminista e Laura Capriglione, jornalista e escritora.

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As mulheres não querem migalhas que caem da mesa. Querem um novo pão, por Maíra Kubik Mano

Essa semana, graças à campanha #AgoraÉqueSãoElas, pudemos ouvir as vozes de muitas mulheres que antes estavam silenciadas, abafadas, diminuídas ou restritas. Ocupando espaços nos meios de comunicação tradicionalmente reservados aos homens, elas trouxeram relatos e informações que têm colaborado para apresentar outros pontos de vista a respeito de assuntos tão duros quanto o assédio sexual e o racismo, e tão invisibilizados como as prisões femininas.

Sem seus olhares diferenciados – e tão pouco valorizados –, que vêm de suas experiências de vida como mulheres, ou seja, como uma parte da população que é cotidianamente inferiorizada, como poderíamos perceber as relações de poder que nos cercam e nos atravessam? Sem elas dizerem, por exemplo, “Chega de Fiu Fiu” e “não quero morrer fazendo um aborto ilegal porque um religioso decidiu impor sua vontade ao conjunto da nação, impedindo as vítimas de estupro de terem acesso à pílula do dia seguinte”?

Essas vozes são mais do que necessárias, são essenciais.

Ocupar esses espaços, porém, não é suficiente. Primeiro, é óbvio, porque uma semana de textos publicados em locais gentilmente ou interessadamente cedidos não dá conta de reparar uma restrição histórica das mulheres à palavra pública. Apenas para ficar no campo da comunicação, esse mesmo ofício que hoje nos abre as portas: quem são os editores dos principais telejornais do Brasil? Ou os nomes mais lembrados na direção do cinema nacional? E na criação publicitária? Não, não são mulheres.

Segundo porque não basta ser mulher para se dispor a combater a desigualdade de gênero. Bem sabemos disso a partir de um exemplo muito conhecido: Margaret Thatcher, primeira ministra do Reino Unido (1979-1990), uma grande liderança mundial que de feminista não tinha nada. Tê-la à frente de uma potência global não contribuiu para melhorar a vida das mulheres, pelo contrário. Sua política neoliberal, ecoada mundo afora, precarizou as condições de existência daquelas pessoas que estavam mais embaixo na escala social, ou seja, das mulheres, que são a maioria das pessoas pobres do mundo.

Mas não precisamos ir tão longe no tempo e no espaço. Ou não foi a primeira presidenta mulher do Brasil a tirar o status de Ministério da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres?

Como bem lembrou a filósofa estadunidense Nancy Fraser em sua palestra essa semana na Universidade Federal da Bahia (UFBA), para combater as desigualdades de gênero não basta tocar as consciências, é preciso mudar as estruturas. Não é suficiente ocupar um cargo em uma empresa ou dirigir um país. Ou publicar um texto num blog de grande audiência. Isso é válido, sem dúvida, mas é uma saída individual que não resolve o problema coletivo das mulheres. Interessa ao sistema deixar as mulheres em uma posição inferior, ganhando menos e trabalhando mais – em casa e na rua. Em especial as mulheres negras.

Sair dessa situação implica em nos juntarmos a outros movimentos e grupos dispostos a pensar em horizontes mais amplos de emancipação humana. A reunirmos aqueles que criticam o genocídio da população negra com quem não quer a redução da maioridade penal, com quem combate a violência contra a mulher, com os grupos que resistirão ao formato restritivo e absurdo de família proposto no Congresso Nacional, com o fora Cunha, com os sem-teto, com os que militam pela legalização da maconha e muito mais. Se a bancada evangélica e a da bala podem se juntar, por que não nós?

Como disse Fraser, “não pensem nas mulheres como um grupo de interesse que merece uma fatia justa do bolo. Façamos um novo bolo”.

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