Belo Horizonte vai ganhar circuito turístico da resistência

20140126081142590609i

Belo Horizonte vai ganhar até 31 de março, data dos 50 anos do golpe militar, um circuito turístico com locais conhecidos como pontos de combate à repressão e palco de torturas

Daniel Camargos – Estado de Minas

Com a identificação e mapeamento dos locais onde os militantes da capital mineira combateram a ditadura militar (1964-1985), a Empresa de Turismo de Belo Horizonte (Belotur) finaliza a elaboração de um roteiro de resistência ao regime. Os mapas com o roteiro, que serão distribuídos pela prefeitura, ficarão prontos, segundo o presidente da Belotur, Mauro Werkema, antes de 31 de março, data emblemática, quando o golpe militar completará 50 anos. 

A Belotur está elaborando novos roteiros turísticos da cidade e serão incluídos lugares chamados “de memória”. Dentro desse tópico será aberto um item com os locais de resistência. O presidente da Belotur não revela quais serão todos os pontos e ressalta que é preciso cuidado para não melindrar setores da sociedade, como os militares. “Estamos com o texto formulado, mas estamos consultando pessoas. O prefeito (Marcio Lacerda) alertou que é preciso cuidado. Faremos um texto responsável, mas que seja verdadeiro”, afirma Werkema. Segundo ele, o texto já foi enviado para a Comissão da Verdade de Minas Gerais e está com a socióloga Maria Celina Pinto Albano, uma das sete integrantes do grupo.

Entre os locais já definidos estão pontos conhecidos da repressão, cenário de tortura e abusos dos direitos humanos, como o antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na Avenida Afonso Pena, no Bairro Funcionários. Atualmente, no local funciona o Departamento de Investigação Antidrogas da Polícia Civil, e o plano do governo estadual é de que lá seja a sede do Memorial dos Direitos Humanos de Minas Gerais. Outros pontos notórios da repressão entrarão no roteiro, como o 12º Regimento de Infantaria, no Barro Preto, e o Colégio Militar, no Bairro São Francisco.

Prédios da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), como o Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina, na Avenida Alfredo Balena; a Faculdade de Direito, na Avenida Álvares Cabral; a antiga Fafich, na Rua Carangola; o antigo Centro Cultural do DCE (onde hoje funciona o cinema Belas Artes, na Rua Gonçalves Dias); e o DCE, na Rua Guajajaras, foram palcos de resistência dos estudantes e também de atentados a bomba e farão parte do circuito turístico.

A casa do ex-prefeito Célio de Castro (1932-2008), no Alto Barroca, alvo de bomba em abril de 1987, também é listada pela Belotur. O mesmo ocorre com a Casa do Jornalista, sede do sindicato da categoria, atacada em junho de 1980. Além da bomba, a parede foi pichada com uma ameaça à “imprensa comunista”.

Uma casa simples na Rua Itacarambi, no Bairro São Geraldo, deve ser um dos locais mais polêmicos do roteiro. Lá funcionava um aparelho (jargão para designar o esconderijo dos grupos de resistência) do Comando de Libertação Nacional (Colina), grupo em que a presidente Dilma Rousseff (PT) militava à época. O aparelho ficou famoso, pois policiais do Dops e da Delegacia de Furtos e Roubos estouraram o portão e entraram atirando. Os militantes responderam no mesmo tom e dois policiais morreram.

Dilma, que atuava nos bastidores articulando o movimento estudantil, não estava na casa nem participava de ações armadas, mas, naquele dia, sete integrantes do seu grupo – Jorge Nahas, Maria José Nahas, Afonso Celso Lana Leite, Murilo Pinto da Silva, Júlio Bitencourt, Nilo Sérgio Macedo e Maurício Paiva – foram presos e a organização começou a se desfazer. Eles haviam acabado de assaltar uma agência do Banco da Lavoura, em Sabará, e foram pegos no esconderijo. O assalto era chamado pelos militantes de “ato de expropriação” para arrecadar dinheiro para combater a ditadura. No dia seguinte à queda do aparelho do Bairro São Geraldo, Dilma e o marido, Cláudio Galeno, fugiram do apartamento 1.001 no Edifício Solar, na Avenida João Pinheiro, na Região Central da cidade. O edifício, entretanto, não fará parte do roteiro, segundo Werkema.

Inspiração

Locais com apelo histórico e ligados às lutas populares são destaques em várias cidades do mundo. Na selva boliviana, é recorrente grupos de turistas visitarem pontos do foco guerrilheiro instalado no país que, em 1967, levou à morte Che Guevara, o revolucionário argentino. Os vestígios do Muro de Berlim, que separava a Alemanha comunista da capitalista e foi derrubado em 1989, seguem atraindo pessoas de todo o mundo.

Uma das inspirações para o roteiro belo-horizontino veio do Recife. Na capital pernambucana, a prefeitura já promoveu passeios de bicicleta por locais como a Casa da Cultura, construída em 1850, na época Penitenciária do Estado, local em que os presos políticos foram mantidos durante a ditadura militar, e o Palácio do Campo das Princesas, onde o então governador Miguel Arraes recebeu voz de prisão nas primeiras horas do golpe de 1964, sendo deposto pelos militares.

A Associação dos Amigos do Memorial da Anistia do Brasil, presidida por Cristina Rodrigues, bate na tecla há seis anos, quando começou a definir os locais de resistência em Belo Horizonte. Em agosto do ano passado, a associação entregou um ofício ao prefeito Marcio Lacerda (PSB), que repassou a tarefa à Belotur. A associação mapeou 42 locais, porém, segundo Cristina, o objetivo era conseguir deixar um símbolo, como uma escultura, em pelo menos 12 locais neste ano. O projeto da associação foi batizado de Trilhas da Democracia, mas Cristina lamenta que a associação não esteja participando da discussão do roteiro elaborado pela Belotur.

A lista preparada pela associação inclui, além de todos os pontos citados por Werkema, locais como a casa de dona Helena Greco e as sedes dos jornais Em Tempo, De Fato e Binômio. Há também a escadaria da Igreja São José, o Edifício Malleta, a Praça Sete, a Praça da Estação, o Colégio Estadual Central, o Convento dos Dominicanos, o extinto Bar Buchecho e outros lugares.

Apesar de não aprovar a maneira como o roteiro é feito, Cristina destaca a relevância da iniciativa, que mostrará que o processo de redemocratização no Brasil foi fruto de luta, sofrimento e mortes. “A juventude está ociosa e ansiosa de novos modelos de comportamento ligados às questões do amor, solidariedade e amizade”, reflete. “O objetivo da divulgação desses lugares é o que sempre desejamos: uma sociedade justa, igualitária e sem preconceito”, afirma Cristina.

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.