Com 10 anos, morador de BH conquista uma vaga na maior competição de ballet no mundo

Christiane Vaz de Mello e Luís juntos na escola Passo a Passo: ela é a verdadeira fada madrinha

Morador do Bairro Taquaril, Luís Felipe venceu dificuldades e conquistou uma das 30 vagas brasileiras na competição

Carolina Lenoir – Estado de Minas

Como se ainda não tivesse palavras suficientes para descrever a sua história, Luís Felipe de Jesus da Silva, de 10 anos, dança. No suor provocado pelos movimentos do balé, ele parece evaporar a morte prematura da irmã, assassinada aos 15 anos por envolvimento com drogas, ou as vezes em que, para ir aos ensaios, foi a pé do Bairro Taquaril, na Região Leste de Belo Horizonte, até o Cruzeiro, na Centro-Sul da capital, porque faltou dinheiro para o ônibus. Nessa narrativa ritmada, transparecem a doçura, a inocência e a alegria infantil que as circunstâncias da vida não roubaram. Foi assim que Luís conquistou uma das 30 vagas brasileiras para a final do Youth America Grand Prix (YAGP), maior competição de alunos de balé do mundo, que será realizada em abril do ano que vem em Nova York, nos Estados Unidos.

Além de Luís, aluno do Ballet Passo a Passo, Minas Gerais terá outros três representantes no concurso: Júlia Hoffmann, de 14, do Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado; Victor Gonçalves Caixeta, de 13; e Any Carolina Assunção, de 14, ambos da Vórtice Escola de Danças de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Para os bailarinos mirins que ainda não têm a 8ª série completa, a competição não vai significar contratos ou bolsas de estudo, mas uma espécie de apresentação de gala para olheiros de algumas das principais companhias de dança do planeta.

Em apenas um ano de participações em concursos, Luís ganhou troféus nos cinco em que competiu. O seu desempenho na prova prática para se tornar membro da Royal Academy of Dance, de Londres – da qual ainda aguarda o resultado –, arrancou elogios dos sempre formais avaliadores britânicos. A dimensão dessas conquistas, porém, parece um pouco distante do menino, que ainda está se acostumando à sensação nova do reconhecimento. “Me sinto muito feliz dançando e também viajando para as competições. Quando estou no ônibus, fico lembrando de tudo o que já passei na dança. Lembro das músicas, das coreografias, das pessoas que conheci. Fico orgulhoso.”

Com apenas três anos, ele pediu à mãe, a auxiliar de serviços gerais Maria Ana de Jesus, de 51, para entrar em uma aula de balé. “Eu via as pessoas dançando pela televisão e amava aquilo. Minha mãe até brinca que eu já dançava na barriga dela. Ela me levou para uma escola no meu bairro que tem aulas de balé aos sábados, mas eu era muito pequeno e tive que esperar quase até os 6 anos.” Aos 9, a professora da escola disse a Maria Ana que naquele espaço não havia mais nada a ensinar a Luís. Por indicação de uma amiga da família, eles bateram na porta do Ballet Passo a Passo e foram recebidos pela diretora Christiane Vaz de Mello.

Como nos melhores contos infantis, Christiane é a verdadeira fada madrinha na história do menino. Além da bolsa integral para que ele estudasse na escola, a diretora assumiu uma parte importante dos cuidados com Luís, inclusive financeiros. É na Passo a Passo que ele faz refeições, os deveres do colégio, tira a soneca depois da aula e passa todas as tardes envolvido em uma atmosfera artística. “Quando ele apareceu aqui, vi imediatamente que ele tinha talento, mas precisava de preparação técnica. O que mais me impressiona no Luís é que, por mais que eu seja brava e cobre bastante, ele não desiste. Ele compreende que a prática da dança não é só saber dar piruetas, mas se dedicar muito. Meu objetivo é que ele seja visto como a promessa que ele verdadeiramente é”, explica a diretora.

Reconhecimento 

Luís é o primeiro a reconhecer o papel de Christiane na construção de um futuro diferente, ainda que com palavras de uma ingenuidade comovente. “O balé me ajuda a sair dos lugares maus. No meu bairro, tem uns meninos muito sapecas, que ficam bebendo e usando drogas. Sempre que vou dormir fico ouvindo a bagunça deles. Eles são muito atentados. Eu não, só quero ser um bailarino bem famoso, daqueles que dão autógrafo”, diz, rindo da própria ambição. Se depender de Maria Ana, esse não será um sonho impossível. “Como mãe, eu quero o melhor para o meu filho. Não entendo muito de balé e não sirvo bem para tirar o pé do chão, mas quando vejo o que ele faz, parece que não estou andando, que meus pés estão no ar. Trabalho o dia todo e o dinheiro mal dá para comer, mas a gente dá um jeito. Graças a Deus, ele tem uma professora maravilhosa, que ajuda demais.”

Para Marisa Pivetta, presidente do Instituto Passo de Arte, representante do YAGP no Brasil e responsável pelas seletivas no país, Luís venceu mais do que uma seleção dura, em que competiu com mais de 220 candidatos e dançou para um júri especializado internacional. “A presença de rapazes no balé cresceu bastante e hoje se fala mais abertamente sobre o preconceito contra meninos que têm a dança como opção. É um processo lento, mas que já avançou.” De acordo com Marisa, competições desse nível são importantes para que a criança passe a olhar a dança como uma profissão. “É interessante para alimentar não só a técnica, mas também a parte emocional. Com isso, aos 15 anos, ele já vai estar preparado para receber bolsas de estudo em companhias norte-americanas e europeias, por exemplo.”

Para que a preparação de Luís seja possível, porém, é preciso um investimento alto para a viagem à Nova York. Contribuições financeiras são bem-vindas e quem quiser ajudar pode entrar em contato pelo e-mail [email protected]

CAMPEONATO QUE ABRE PORTAS

A competição Youth America Grand Prix (YAGP) concede anualmente cerca de US$ 250 mil em bolsas de estudos nas principais escolas de balé do mundo. Aberto a estudantes de 9 a 19 anos, o YAGP foi criado em 1999 por Larissa e Gennadi Saveliev, ex-bailarinos da companhia russa Ballet Bolshoi. Sem fins lucrativos, a organização tem o objetivo de fornecer oportunidades educacionais e profissionais para jovens bailarinos, como um trampolim para uma carreira na dança. Desde sua fundação, mais de 25 mil bailarinos participaram de workshops internacionais e cerca de 200 foram contratados por 50 companhias.

Memória

A HISTÓRIA DE BILLY ELLIOT

Lançado em 2000, o filme Billy Elliot – direção de Stephen Daldry – conta a história de um menino de 11 anos que, obrigado pelo pai a treinar boxe, acaba fascinado pela magia do balé ao assistir a aulas na mesma academia. Ele decide largar as luvas e se dedicar à dança, mesmo enfrentando a contrariedade do irmão e do pai. O longa-metragem recebeu indicações ao Oscar nas categorias melhor diretor, melhor atriz coadjuvante (Julie Walters) e melhor roteiro original.

http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/10/12/interna_gerais,323109/com-10-anos-morador-de-bh-conquista-uma-vaga-na-maior-competicao-de-ballet-no-mundo.shtml#.UHfzhQ53swE.gmail. Enviada por José Carlos.

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