Carta Política do II Encontro Metropolitano de Agroecologia do Rio de Janeiro

Entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro de 2012, cerca de 300 pessoas da região metropolitana do Rio de Janeiro e de outros municípios, reuniram-se em Magé, para discutir o fortalecimento e a construção de territórios agroecológicos nesta região. Somos agricultoras e agricultores familiares, rurais e urbanos, criadores, pescadores, militantes da reforma agrária e de pastorais, assentados e acampados, estudantes, educadores, consumidores e assessores, que lutamos por uma agricultura saudável e contra as injustiças sociais e ambientais.

Denunciamos a violência social e ambiental do atual modelo de desenvolvimento capitalista hegemônico, de especulação imobiliária e instalação de grandes indústrias poluentes. Este modelo antidemocrático só serve aos interesses do grande capital, desrespeitando os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, e pressionando os agricultores e pescadores de forma dramática. A instalação da siderúrgica TKCSA na baía de Sepetiba, a construção do arco rodoviário metropolitano, o aterro sanitário de Seropédica sobre o aqüífero Piranema, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ) e projetos imobiliários em áreas rurais e de preservação ambiental, são manifestações desse modelo que precisamos denunciar.

Os governos têm atuado para favorecer a implementação desse modelo e não se preocupam com a saúde e a segurança alimentar e nutricional da população, nem com a preservação ambiental. Até mesmo as escolas do campo estão sucateadas e não atendem às necessidades da população.

As populações resistem no território ao modelo hegemônico.  Por outro lado, apresentam outra forma de desenvolvimento baseado nas iniciativas agroecológicas e de promoção da saúde, produzindo alimentos de qualidade, sem agrotóxicos, organizando grupos de plantas medicinais, feiras da roça, feiras agroecológicas, sindicatos, associações e cooperativas. Este trabalho infelizmente conta com pouco apoio das políticas públicas.

Para fortalecer essas iniciativas trabalhamos em rede, de forma solidária, e autônoma em relação aos governos e aos partidos políticos. Seguiremos mobilizados e organizados, pois temos a certeza de que o nosso trabalho aponta caminhos promissores para o futuro.

O mapa da região metropolitana que queremos construir é um mapa agroecológico, com uma agricultura familiar cada vez mais forte e numerosa, consumidores organizados, com muitas feiras da roça, ofertando alimentos de qualidade para a população, com múltiplas práticas de preservação do patrimônio cultural de uso das plantas medicinais, e com escolas do campo de qualidade.

Na nossa luta por políticas públicas e considerando o contexto das eleições municipais, queremos promover um debate democrático em nossas comunidades e municípios.

Apresentamos as nossas reivindicações:

1)      Que parem imediatamente as violações dos direitos dos agricultores e pescadores ao seu território.

2)   Que seja feita a regularização fundiária, criados assentamentos da reforma agrária, reconhecidos os territórios da agricultura familiar e da pesca artesanal e disponibilizados espaços para a prática da agricultura urbana.

3)      Revisão imediata dos planos diretores municipais para que sejam reconhecidas as áreas rurais de todos os municípios da região.

4)      Que os governos municipais garantam o apoio à agricultura familiar e à pesca artesanal estruturando as secretarias de agricultura e de pesca e criando planos e projetos municipais.

5)     Que sejam criadas políticas de incentivo à transição agroecológica e de promoção de segurança alimentar e nutricional, com apoio às feiras da roça, feiras da agricultura familiar e feiras agroecológicas e campanhas de incentivo ao consumo dos alimentos produzidos localmente, e financiamento da produção com enfoque agroecológico e dos produtos da pesca artesanal.

6)      Democratização e fortalecimento dos conselhos de segurança alimentar e nutricional e de desenvolvimento rural.

7)    Cumprimento da lei da alimentação escolar com produtos dos próprios municípios e ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos, como políticas de promoção da agroecologia e de segurança alimentar e nutricional.

8)      Garantia de assistência técnica pública e gratuita e com enfoque agroecológico, com a participação de organizações da sociedade civil.

9)      Garantia do direito dos agricultores familiares e pescadores artesanais à Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP).

10)  Criação e reabertura das escolas do campo, de ensino fundamental e médio, com uma educação contextualizada e de qualidade, orientada pela pedagogia da alternância.

11)  Implementação da Estratégia Saúde da Família nas áreas rurais, de uma forma articulada com conhecimentos e práticas alternativas locais, como a produção e o uso das plantas medicinais.

12)   Proibição do uso de agrotóxicos e transgênicos nos municípios e banimento imediato dos 14 agrotóxicos analisados pela ANVISA, muitos já proibidos em outros países.

Este encontro é um marco histórico para a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro. Temos a clareza dos grandes desafios que temos pela frente, e sabemos que para enfrentá-los precisamos fortalecer as nossas organizações e nos articularmos em rede. Seguiremos estudando o que acontece nos nossos territórios, ameaças e resistências.

Temos o compromisso de valorizar e defender as experiências que estamos construindo, e de multiplicá-las, porque esses são caminhos promissores para o nosso futuro e das próximas gerações.

PELA CONSTRUÇÃO DE TERRITÓRIOS AGROECOLÓGICOS E EM DEFESA DA VIDA!

Magé, 2 de Setembro de 2012

Entidades da Sociedade Civil e Movimentos Sociais, que compõe a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ), presentes no Encontro que subscrevem e apóiam esta carta:

  • Amigos da Horta
  • ASPTA – Agricultura Familiar e Agroecologia
  • Associação Rio Antigo de Ecologia e Cultura
  • Associação dos Pescadores da Pedra de Guaratiba – APP
  • Associação dos Agricultores de Vargem Grande – AGROVARGEM
  • Associação dos Agricultores do Mendanha
  • Associação dos Agricultores do Rio da Prata – AGROPRATA
  • Associação dos Camponeses de Marapicu
  • Associação Feira da Roça de Nova Iguaçu – AFERNI
  • Associação dos Lavradores e Criadores de Jacarepaguá – ALCRI
  • Campanha permanente contra os Agrotóxicos e pela vida
  • Centro de Ação Comunitária – CEDAC
  • Comunitá Impegno Servizo Volontariato – CISV
  • Comissão Pastoral da Terra – CPT
  • Cooperativa de Consultoria, Projetos e Serviços em Desenvolvimento Sustentável – CEDRO
  • Cooperativa Univerde
  • Cooperativa dos Agricultores Familiares de Magé – COOPAGÉ
  • Defensores do Planeta
  • Federação dos Trabalhadores na Agricultura – FETAG/RJ
  • Fundação Xuxa Meneghel
  • Grupo de Agricultura Ecológica – GAE/UFRRJ
  • Grupo Capim Limão/UFRJ
  • Grupo Mutirão de Agroecologia – MAE/UFF
  • Grupo de Agroecologia Boldinho
  • Instituto de Política para o Cone Sul – PACS
  • Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST Rio
  • Pró Jovem Adolescente
  • Rede de Agricultura Urbana Carioca
  • Rede Ecológica de Consumidores
  • Reserva do Patrimônio Particular e Natural (RPPN) – El Nagual
  • União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária – UNICAFES
  •  Verdejar Proteção Ambiental e Humanismo

Enviada por Denis Monteiro.

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.