RJ – Moção de Repúdio à punição de residente no Hospital Universitário Pedro Ernesto

Nós, residentes de diversas categorias participantes do Coletivo Rio do Fórum Nacional de Residentes em Saúde viemos, através da presente carta, demonstrar nosso apoio e solidariedade ao residente Tiago Cabral e repudiamos a atitude ocorrida no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) – UERJ após o episódio de incêndio ocorrido no dia 04 de julho de 2012. O referido nutricionista residente foi punido com suspensão após fornecer à imprensa, na ocasião, informações que denunciavam as péssimas condições de trabalho que afligem os profissionais do HUPE há anos. Tais informações desagradaram claramente instâncias superiores por expor a triste e absurda realidade de usuários e profissionais.

No que se refere aos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos brasileiros, a Constituição Federal (1988) afirma que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” (art. 5º, inciso IV) e que “é livre a expressão da atividade (…) de comunicação, independentemente de censura ou licença” (art. 5º, inciso IX). Isso assegura ao residente e a qualquer trabalhador sua liberdade de expressão e o direito de denunciar as
condições precárias em que se encontram ele e todos os funcionários do HUPE que, assim como muitos dos profissionais do SUS, diariamente lutam por melhores condições de trabalho.

Historicamente, aqueles que lutam por seus direitos e não se omitem frente às injustiças são os mais combatidos e oprimidos por seus superiores como forma exemplar aos demais colegas, para que não se atrevam a tomar as mesmas atitudes. Não é a primeira vez que um profissional de saúde, residente, servidor ou contratado, sofre algum tipo de coação por seus superiores. Repudiamos tal ação, pois o processo de suspensão ocorreu de forma arbitrária e sem qualquer transparência, e a classificamos como abuso de poder.

O ato de silenciar um residente vai à contramão da construção de uma gestão mais participativa, tanto na saúde quanto na educação, que valorize e fortaleça o processo democrático de ensino-aprendizagem. Além disso, coloca em risco o papel crítico dos residentes e sua formação baseada na reflexão da teoria com a prática, visto que são profissionais em treinamento nos serviços e muito tem contribuído ao longo desses anos nas lutas por um sistema de saúde melhor.

 A atitude tomada pelo HUPE provocou a mobilização do coletivo de residentes organizados por todo o país. A ampla divulgação deste fato procura assegurar que os residentes mantenham a postura de provocadores da mudança nos paradigmas, possibilitada pela vivência nos serviços. Não podemos nos calar diante desta injustiça, em que a expressão dos sentimentos de angústia e indignação frente a uma situação caótica seja silenciada, visando abafar aqueles que expressam opinião contrária ao atual modelo de gestão da saúde.

 Somos cidadãos cientes de nossos direitos e deveres, somos profissionais sérios e comprometidos com o SUS de qualidade que deveria ser garantido por uma administração pública e transparente. Desta forma, estamos mobilizados e unidos em defesa do residente Tiago Cabral e de todos aqueles que, diariamente, passam por problemas deste tipo.

Assinam esta carta:
Coletivo Rio de Janeiro – Fórum Nacional de Residentes em Saúde
Fórum de Saúde do Rio de Janeiro
ANDES-RJ
ASFOC
DCE UERJ

Assinaturas de apoio devem ser enviadas para:

  • tfalcao@hotmail.com > Tobias Falcão – Educador Físico; Residente Multiprofissional HUPAA/UFAL; Fórum Nacional de Residentes em Saúde
  • edutoste@hotmail.com > Eduardo Toste – Fisioterapeuta, Residente Multiprofissional em Saúde – HUGG/UNIRIO , Coletivo Rio de Residentes; Fórum Nacional de Residentes em Saúde

Carta de Solidariedade

Por Monica Lima*

Bastante indignada venho me solidarizar com Tiago Silva Cabral e denunciar a discriminação horrenda que este residente esta sofrendo por dar entrevista emocionado após o incêndio no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe). Tiago foi suspenso por um mês e está ameaçado de ser expulso do Hupe. Pasmem, essa foi uma decisão da “comissão de ética” do hospital. É mais um caso grave de assédio moral, criminalização covarde, opressão e autoritarismo empregados pelas chefias e administração central do Hupe e da UERJ. Tiago está em casa e não quer falar.  Claro, foi massacrado isoladamente sem direito a defesa. Tiago deveria entrar com um mandato ou processar a UERJ, pois sabemos que este tipo de atitude é para intimidar Tiago e outros que queiram se expressar. Quando Tiago retornar ao trabalho será acompanhado por uma psicóloga. A “comissão de ética” não somente pune como discrimina o rapaz, julgando-o com problemas psicológicos. Me pergunto, quem nesta história realmente tem problemas psicológicos e éticos? O residente Tiago? Neste momento, infelizmente, me envergonho profundamente por este tipo de atitude imoral acontecer na universidade em que trabalho e reflito sobre o que a comunidade externa pensará disso, já que ela sofre na carne as consequências. Estes senhores do poder punem rapidamente Tiago, mas não punem os corruptos do Estado e ainda são capazes de cear com eles em restaurantes aristocráticos. Hoje denunciei na assembleia comunitária e propus uma moção de repúdio, uma reunião com a comissão de ética do Hupe, e que o caso de Tiago esteja na pauta de negociação com a reitoria. Tiago é vítima de falsas acusações e caminhamos para mais uma catástrofe moral e de grande injustiça. Mas o que esperar desta reitoria que nunca se posicionou quando fui criminalizada e processada pela TKCSA (Companhia Siderúrgica do Atlântico em Santa Cruz) por denunciar os impactos na saúde da população devido a poluição?

Tiago (vide matéria do Globo abaixo) no dia do incêndio no Hospital Universitário Pedro Ernesto denunciou as reais dificuldades profissionais que vem enfrentando no dia-a-dia de trabalho no hospital: a falta de material, equipamentos e até mesmo comida. Ele não mentiu em nada, não  pertence a nenhum movimento organizado, apenas colocou a verdade e ratifico o que afirmou Tiago.  Então, por que será que Tiago está sendo punido? Se a cozinha do Hupe foi privatizada e o serviço só piorou. Desafio aqueles que duvidam e solicito que verifiquem às câmaras frigoríficas da cozinha com seus próprios olhos. Se quiserem trago pacientes que ficaram internados no Hupe e não comeram por receberem comida estragada. Quantos parentes de pacientes precisam atravessar a rua, ir a farmácia para comprar o que falta de medicamento ou material? Alguns médicos (muito poucos) também fazem isso, compram para os pacientes. A estes médicos digo que esta atitude é louvável, mas o assistencialismo e nossa bondade não resolverão esta calamidade, sabemos do caos geral na saúde do estado . Então, apelo a estes profissionais conscientes de sua função social que apoiem Tiago, que mais ainda, defendam Tiago, pois sua atitude foi humana. Guardar o silêncio é estupidez, pois o que sobra é mais GENTE doente. O sistema está “vomitando” VIDAS de homens, mulheres e crianças que não são invisíveis (nós estamos incluídos), enquanto Cabral e o secretário de saúde esbanjam luxo em Paris; enquanto Cabral e Paes liberaram mais dinheiro para a Delta; enquanto Cabral não cumpre a lei e não repasse os 6% da arrecadação tributária para a UERJ; enquanto Cabral e Vieiralves caçam nosso Triênio e nada avançam na implementação do plano de carreira dos técnicos e dedicação exclusiva dos professores; enquanto Vieiralves apunhala seus trabalhadores (após início de negociação não honrando sua palavra) com Ato Executivo decretando estado de emergência no Hupe, um golpe baixo para culpabilizar o movimento e impedir a greve (bravamente o Hupe decidiu continuar a greve); enquanto reitoria quase que declara um “estado de sítio” na Uerj com exageros na segurança (inclusive segurança privada reforçada) e ameaça com corte de ponto os grevista.  Bem sabemos que a classe dominante, muito bem representada por estes senhores, é a maldição de nossas multidões de pobres, excluída de tudo, como se não fossem gente, mas não podemos nos calar diante de tantas violências para com a classe trabalhadora tão oprimida e escravizada. Acrescento que o incêndio no Hupe ocorreu devido à crescente política de sucateamento do serviço público, somada a ausência total de uma política de segurança para os trabalhadores da Uerj e devido a crescente e inconsequente política de privatização da saúde, tudo isso implementado pelo governo Cabral (fortemente apoiada e sustentado pela reitoria).

Solicito aos colegas que expressem sua indignação e repudiem esta atitude da reitoria da UERJ, do diretor do HUPE e dos outros responsáveis por esta atitude violenta. O colega residente deveria ser homenageado pela coragem e compromisso com o público e a população. Não podemos nos calar e precisamos apoiar Tiago, pois isto é o resultado da privatização que almeja o lucro, e pior, se criminaliza quem denuncia. A reitoria, a direção do Hupe e todos os responsáveis por esta arbitrariedade devem ser constrangidos por esta atitude repressora, intimidatória e criminalizadora. O residente é livre para se expressar, assim como todos nós. Vamos divulgar em nossas redes, sensibilizar os jornalistas e as instituições. Não permitam que Tiago seja injustiçado e perca a esperança.

SOMOS TODOS(AS) TIAGO!

TRABALHADORES EM DEFESA DA UERJ!

*Mônica (trabalhadora da UERJ em greve)

“Não puderam ser amáveis aqueles que pretendiam trazer a amizade ao mundo”. Bertold Brecht

A notícia que deu origem à punição:

‘Falta até comida para pacientes’, diz residente de hospital incendiado

Eles denunciam falta de condições de trabalho no Hospital Pedro Ernesto. Reitor da Uerj diz que vai se reunir com diretores e chefes do hospital.

Janaína Carvalho e Renata Soares, do G1 RJ

Com o incêndio que destruiu o prédio do almoxarifado do Hospital Universitário Pedro Ernesto, nesta quarta-feira (4), as condições de trabalho devem piorar ainda mais, segundo os residentes da unidade. Eles reclamam dos prejuízos para os estudos devido às sucessivas greves que ocorrem desde dezembro de 2011 e da falta de material para realizar os procedimentos médicos.

“A morte da paciente desta quarta-feira é um caso pontual. Mas são precárias as condições de trabalho e de assistência médica em todo o hospital. Às vezes, pacientes têm de trazer comida e frutas de casa. Falta até faca para passar manteiga no pão. E os pacientes usam o dedo para isso”, contou o residente de nutrição Tiago Silva Cabral, acrescentando que faltam anestesistas e enfermeiros na unidade.

Já para o residente de cirurgia geral Douglas Poster, por causa das sucessivas greves que ocorrem há sete meses, apenas 30% das cirurgias marcadas são realizadas. Ele diz ainda que 80% dos casos dos pacientes têm indicação de cirurgia.

“Há cerca de 300 crianças na fila, aguardando uma cirurgia no setor de otorrino infantil. Nós queremos trabalhar, estamos aprendendo. Mas não conseguimos realizar nem um terço da nossa capacidade. Faltam próteses, grampeadores, luvas e inúmeros outros materiais para cirurgias”, reclamou o residente.

Reitor diz que nunca recebeu denúncias
O reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Ricardo Vieiralves, disse que as denúncias feitas pelos residentes nunca chegaram à reitoria. Ele afirmou que vai marcar uma reunião com a diretoria do Hospital Pedro Ernesto.

“Não sabia dessas reclamações. Os residentes só estão falando da precariedade das instalações porque a imprensa está aqui. Esta semana mesmo vou marcar uma reunião com chefes e diretores do hospital para resolvermos esses problemas, que são pontuais”, disse Vieiralves.

Ele afirmou que as denúncias de falta de comidas e materiais, como talheres para os pacientes, não procedem. “Nunca houve falta de comida nem de material para os pacientes internados”.

Já os residentes informam que além de pessoa, há uma enorme lista de materiais necessários para exames e cirurgias que estão em falta há tempos, como agulhas, algodão, ataduras, cateteres, drenos, luvas, lâminas, sabão líquido, sondas, tubos endotraqueais e seringas descartáveis, entre outros.

O diretor do Hospital Pedro Ernesto, Rodolfo Acatalassu, informou que nos últimos quatro anos foram investidos R$ 50 milhões em obras e na aquisição de equipamentos para a unidade.

(Matéria publicada em http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2012/07/falta-ate-comida-para-pacientes-diz-residente-de-hospital-incendiado.html).

Enviada por Mônica Lima.

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