Destilaria Itaúnas contamina rio que corta comunidades quilombolas no norte do ES

Flavia Bernardes

A Destilaria Itaúnas S/A (Disa), de propriedade do prefeito de Conceição da Barra (norte do Estado), Jorge Donati (PSDB), despejou vinhoto – resíduo do processo de destilação do álcool – no rio Angelim, contaminando as águas utilizadas pelas comunidades quilombolas de Angelim I, II e III, pela terceira vez este ano. A denúncia foi feita por quilombolas da região, após a morte de peixes, galinhas e um porco que tiveram contato com a água contaminada. Crianças também adoeceram.

Segundo contou João Batista Guimarães, da comunidade de Angelim I, a empresa justifica a contaminação como um erro técnico durante a lavagem de uma das caldeiras onde o vinhoto é despejado para sedimentação. Entretanto, alertou ele, as comunidades são obrigadas a conviver com vazamentos constantes.

“Esses derramamentos costumam ser registrados durante os períodos de grande chuva, porque é quando a Disa resolve efetuar a limpeza de sua estrutura. Com o grande volume de água, fica mais difícil perceber a presença do vinhoto, porém, desta vez, a extensão da contaminação foi muito grande”, enfatizou.

Atividades como cozinhar, tomar banho, irrigar e o uso da água para animais ficaram inviabilizadas. A comunidade de Angelim II, aponta Batista, está sendo abastecido por um caminhão pipa da Disa.  Nesta comunidade, onde 30 famílias de mulheres vivem, o descaso dos órgãos públicos é sentido desde a queda na produção de alimentos e na rotina da família, até o impacto na produção de mudas para a Aracruz Celulose, conforme acordo firmado entre a empresa e a comunidade quilombola. 

“É uma comunidade mais carente que vive nas margens do rio e que sofre forte pressão para que os impactos sentidos pelos derramamentos sejam abafados, mas desta vez, a situação extrapolou. O problema atingiu seu limite. Em fortes chuvas, até a água da cisterna de onde elas tiram a água para beber fica contaminada”, completou.

Os moradores assistem há 20 anos a degradação do rio Angelim, que abastece também o rio Itaúnas. Desde 1992, quando ocorreu uma mortandade violenta de peixes depois da aplicação de vinhoto pela Destilaria Itaúnas, e de herbicida de alta potência pela então Aracruz Celulose (Fibria) e antiga Bahia Sul (Suzano Papel e Celulose), os quilombolas cobram medidas dos órgãos ambientais, sem sucesso.

A informação é que nem o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), nem o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf) atuam em prol da proteção do manancial na região. “O Iema esteve aqui no último vazamento, disse que ia fazer uma análise, mas até agora ninguém conhece o resultado disso”, desabafou João Batista Guimarães.

Os quilombolas alertam que as agressões ao meio ambiente pelos empreendimentos que deixam ilhadas as comunidades têm conseqüências sérias para as comunidades, que sempre nutriram relação íntima com as matas, córregos, lagos e rios. Antes da instalação das empresas, eram dos recursos naturais que os quilombolas garantiam o sustento de suas famílias. Os mananciais também serviam de fonte de água, lazer e transporte, porém, atualmente estão cada dia mais próximo da sua morte.

Além das comunidades de Angelim I, II e III, a informação é que também sofrem com a contaminação as comunidades Queixada e Angelim, situadas acima da localização da empresa.

Segundo João, o vinhoto pode ser identificado na água pelo forte cheio e pela coloração de “café coado”, que tomou conta das águas do rio nos últimos dias.  O resíduo é altamente poluente.

http://www.seculodiario.com.br/exibir_not.asp?id=92722

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