luto

Para Vítor. Com muita dor

Tania Pacheco – Combate Racismo Ambiental

Não saberemos jamais quem você seria se tivesse a chance de crescer, menino Kaingang, nesse Sul onde infelizmente não são poucos os que te querem e aos teus fora do mapa. Dos mapas. Uma liderança indígena lutando pelos direitos do seu povo? Um alcoólatra dando motivo às críticas de sempre? Um doutorando recebendo elogios? Ou uma nota registrando, em uma década, mais um adolescente indígena suicidado pela nossa sociedade?

Este 2015 se fecha dentro de mim com um vasto sentimento de repugnância, mais forte até que o de indignação e revolta. No filmezinho que passa na minha cabeça, encerrado pela tua morte sem rosto, há muitos e muitos outros se entrechocando. E, infelizmente, estão longe de serem boas imagens.

Como num vídeo em alta velocidade, passam caras doentes, babando raiva, ódio, defendendo o retorno de privilégios garantidos por assassinatos e torturas. Em outras, não menos nocivas, a expressão é – na ausência de outra palavra que melhor expresse o nojo do cinismo – ignóbil. De uma repugnância potencializada pelos risos de vitória canalha de asseclas eleitos, pagos e garantidos por nós, tenhamos ou não votado neles, mas a serviço de seus verdadeiros patrões, de outra corja mais bem vestida. Passa até mesmo a cara de uma presidenta vitimada por alguma síndrome de estocolmo, subserviente hoje ao que de mais aviltante deveria ter sido no seu passado.

Há ainda outras figuras. De ontem mesmo, lembro a foto do último camponês morto no Maranhão, no dia de natal, à janela de sua casa, parecendo esperar a bala -as balas!- dos jagunços, apesar das denúncias e pedidos de garantias. Através dela recordo outros e outras que também se foram, nas mortes matadas da luta pelo território. Mais velhos que os adolescentes negros caídos em poças de sangue nas ruas das comunidades e favelas, mas igualmente rotulados como supérfluos nessa nossa civilização decadente.

2015 não foi só isso, bem sei. Há também imagens de fotos felizes; de algumas vitórias, em meio a tantos retrocessos. Mas, talvez por conta desta última ‘noticinha besta’, que sequer está merecendo espaço nos chamados grandes jornais (nem nos pequenos, parece!), confesso que o peso das negativas me bate como muito, mas muito maior mesmo!

Adeus, Vítor. Que você seja recebido por muito luz. Que teus pais e irmãos se consolem e tirem da tua morte forças para exigir desta sociedade cretina justiça. E que nós nos juntemos a eles, dando um grande basta a essa realidade monstruosa com a qual estamos convivendo neste País, dia após dia!

Vai em paz, menino. Aqui, que gritemos junt@s: chega!

Comments (2)

  1. este menino indígena não foi o primeiro e acho que não será o último .Quantos já morreram sem que se tenha conhecimento. quantos conflitos em terras indígenas, em ms,mt,pr,enfim em todo norte ,nordeste ,sul,sudeste,centro oeste ,com morte ou não ,ou apenas conflitos ,nós não somos de um modo geral bem informados dos acontecimentos indígenas,a mídia não fala quase nada,assim acentuando mais o preconceito pelo povo indígena que quase todos tem .precisamos todos ser educados de novo,e aprender o que é realmente o povo indígena que é igual a todos nós.
    ou não? obrigada.
    .

  2. Tania, obrigada por sua carta. Não podemos passar por esse crime inacreditável como “mais um na história de genocídio dos indígenas”, especialmente no sul do Brasil.
    Estou organizando a comunidade internacional para dar apoio à causa. Adoraria falar contigo. Vc poderia enviar-me seu email? O meu é unatalie@gmail.com
    Grata

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